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Futebol, o sal e o fel

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h29

11/3/2008
Amigos, para quem gosta de futebol ou pelo menos de um certo tipo de
futebol, o Paulistão está para ninguém botar defeito. A rodada terminou com
muita emoção e a tabela totalmente embolada. Os times do interior deram uma
afrouxada (segundo eles com a gentil contribuição da arbitragem) e três dos
grandes encontram-se em condições de se classificar para as semifinais.
Aliás, se a primeira fase terminasse hoje, apenas o Corinthians estaria
dentro. Depois do bom resultado contra o líder Guaratinguetá, seria o único
dos grandes a disputar o título, mas convém lembrar que São Paulo e
Palmeiras estão na porta do G-4, prestes a entrar. O tricolor parece meio
cansado, como confessou Muricy. Mas o Palmeiras encontra-se em franca
ascensão e com o moral alto, com a virada espetacular que aplicou no
Bragantino ganhando por 5 a 2 depois de estar com dois gols em desvantagem.
O único que ainda me parece alijado da disputa pelo título é o Santos, que,
embora animado pelas vitórias seguidas, uma na Libertadores outra contra o
Noroeste, ainda sonha com o tri no Paulistão. Mas deve ser sonho de uma
noite de verão, pois mesmo vencendo continua irregular (desaba no segundo
tempo) e acaba de vender o último remanescente do meio-de-campo do bom time
do ano passado, o volante Rodrigo Souto. Quem quer títulos não vende
peças-chave. Compra.
E a Portuguesa, hein? Será que se candidata a finalista depois da bela
vitória sobre o São Paulo por 2 a 0? Cabe lembrar que a Lusa vem sendo o
terror dos clássicos, desde quando liquidou o Santos, também por 2 a 0, logo
na abertura do campeonato. Seria muito legal ver a Portuguesa disputar o
título, para glória da sua pequena porém aguerrida torcida – aquela mesma
que foi menosprezada por esse grão-senhor do futebol que é o presidente do
São Paulo. Ele pode ter até falado a verdade ao dizer que Portuguesa jamais
seria um clube grande porque não tem uma grande torcida. Mas há coisas que a
polidez recomenda calar – até por uma questão de elegância, essa virtude tão
valorizada como pouco praticada pela autodenominada “elite” brasileira.
Mas é claro que, além das partidas interessantes, vários incidentes vieram
apimentar o cardápio do Paulistão. Uma cota do tempero deve-se à nossa
querida arbitragem, sempre pronta a fornecer emoção quando o próprio jogo
não o faz. Juiz que dá dois cartões amarelos ao mesmo jogador e não o
expulsa, bandeira que vê o pênalti, mas não sinaliza para o árbitro, a
costumeira incapacidade de cumprir a regra do impedimento – tudo isso fez a
festa do fim de semana nos estádios e nos botequins da segunda-feira, esse
dia ingrato.
Um dia Joseph Blatter disse que era contra os meios eletrônicos no futebol
porque estes tirariam a polêmica da interpretação dos lances. Nesse caso,
seria interessante o presidente da Fifa atribuir uma medalha de honra ao
mérito aos juízes brasileiros, que, com suas extravagâncias, fornecem
material de primeira linha à comédia do futebol.
Esse é o lado animado e gostoso do jogo da bola que, aconteça o que
acontecer, sempre estará por aí, a preencher o vazio dos nossos dias. O
outro, o da dura realidade, veio na palavra do técnico Emerson Leão ao
comentar a saída de Rodrigo Souto para a Rússia: “O futebol brasileiro está
inteiramente à venda.” Não é a primeira vez que Leão diz essa frase. E nem
isso é novidade para quem quer que minimamente acompanhe o futebol. Mas
ouvi-la assim, na lata e sem anestesia, sempre dói um pouquinho, pelo menos
em quem ainda tem um resto de brio.

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