Geraldinos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Geraldinos

Luiz Zanin Oricchio

06 de maio de 2016 | 12h21

image

A geral era a parte mais popular do velho Estádio do Maracanã, construído em 1950. Com ingresso mais barato, era onde ficavam os torcedores mais apaixonados. A geral era a alma do Maracanã. Com a reforma do estádio, para a Copa do Mundo de 2014, a geral foi extinta e trocada por acomodações mais confortáveis – e mais caras. Geraldinos é o filme de Pedro Asbeg e Renato Martins que conta a história desse crime contra a cultura popular brasileira.

O documentário mostra cenas dos últimos jogos em que a geral ainda existia. Essa parte do estádio ficava ao nível do gramado. A visão do campo era ruim, mas a deficiência era compensada pelo entusiasmo dos geraldinos. Afinal, eles não iam ao estádio apenas para “ver” o jogo, mas para participar dele. A proximidade com os jogadores dava sensação de intimidade e que poderiam, com sua torcida, intervir de forma direta no que estava acontecendo em campo. Também podiam xingar o técnico, palpitar na escalação do time e nas substituições, já que o banco de reservas ficava ali perto, ao alcance da voz e dos gestos.

No filme falam os torcedores, que fizeram daquele canto do estádio o seu local predileto. Fanáticos, delirantes, magníficos em sua devoção por seus times.E falam jogadores, como Assis, Zico e Romário, que nutriam particular afeto por aquele tipo de torcedores. Zico relembra um jogo em que o Flamengo vencia o Fluminense por 3 a 0 e um torcedor da geral invadiu o campo e abraçou-se às suas pernas, implorando para que não marcasse mais gols contra seu time. Romário diz que adorava comemorar seus gols naquele canto do estádio, mesmo que a torcida lá concentrada fosse contrária. “É pena, é alguma coisa que acabou e não vai mais voltar”, lamenta o atual senador.

Um jornalista como Lúcio de Castro (da ESPN) e um político, como Marcelo Freixo (PSOL), entendem que a extinção da geral faz parte de um projeto mais global de elitização do futebol. “Como os colonizadores espanhóis edificavam suas igrejas sobre os templos dos dominados, para humilhá-los, construíram o novo Maracanã sobre os escombros dos nossos sonhos”, diz. Freixo entende que o antigo

Maracanã fazia parte de um projeto de cidade, em que todas as classes sociais podiam conviver. O atual atende a este momento de elitização, em que o lazer torna-se privativo de quem pode pagar e resta às classes mais pobres ficar em seus bairros longínquos, vendo tudo pela TV. Por isso, alguns dos antigos geraldinos, agora órfãos, são mostrados ao acompanhar os jogos em suas casas, na periferia da cidade. Também vale, mas não é a a mesma coisa.

Ao destruir a geral, o Maracanã perdeu sua alma. Não foram apenas os geraldinos que ficaram órfãos.

Tudo o que sabemos sobre:

cinemafutebolgeralMaracanã

Tendências: