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Gestão emocional

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h53

A indicação de Dunga para a seleção merece alguns comentários. Um: tudo leva
a crer que seja um cargo-tampão, boi de piranha para durar até 2008, quando
então termina o contrato de Scolari com Portugal. Como quando era jogador,
Dunga carregaria o piano até lá para entregá-lo ao novo Dom Sebastião, que
então levaria a equipe até o hexa na África. Dois: o problema imediato da
seleção é recuperar a credibilidade. Depois de participação frouxa na Copa,
nada melhor que o novo treinador seja sinônimo de raça e dedicação. Dunga
terá como missão reacender aquele tradicional amor à camisa amarela, perdido
nos tempos da globalização. Tem personalidade forte, capaz de peitar
estrelas mimadas. Mas, cá entre nós: será uma tarefa inglória. Terceiro:
dizem que é estudioso e capaz. Mas o desafio da seleção não passa por
inovações táticas. É psicológico e motivacional. E também cultural: tentar
restabelecer o antigo elo que unia o “escrete” ao povo brasileiro. A gestão
Dunga deverá passar mais pela emoção do que pela razão.
TAPAS E BEIJOS
Essa eu ainda não tinha visto: o jogador que manda a própria torcida calar o
bico. Numa entrevista, Pelé se dizia indignado com a atual “falta de
educação” do atleta profissional que faz sinal de silêncio à torcida
adversária quando marca um gol. O que dizer então do Tevez, que usou o mesmo
gesto contra sua própria gente?
No Santos, Luxemburgo não cansa de se queixar da torcida na Vila. Reinaldo,
agora em paz com os gols e as contusões, faz coro ao chefe. Ok, ninguém
gosta de ser criticado, menos ainda vaiado. Mas, o que fazer, se a torcida é
a voz do povo?
Ou será que o Tevez pensa que a Fiel está satisfeita na lanterna do
campeonato, agüentando a gozação dos rivais?
Da mesma forma: será que o Luxemburgo e o Reinaldo ignoram que a torcida do
Santos já se cansou desse papo de que o time “está em formação”? E quando
estará formado? Quando o Campeonato Brasileiro de 2006 já fizer parte da
História?
A reação da torcida depende e muito da atitude do jogador. Carlitos nunca
foi pessoalmente questionado porque sempre exibiu a raça exigida pela
torcida. Será que não sabia que o time estava em situação catastrófica
quando foi repousar em Buenos Aires depois da Copa?
Na Vila, a mesma torcida que ensaiou tímida vaia no intervalo do jogo contra
o Juventude aplaudiu no final. Por quê? Porque o segundo tempo foi
diferente. O Santos criou, empenhou-se e os gols surgiram. É preciso ganhar
a torcida, como deve saber qualquer jogador medianamente inteligente.
Sócrates costumava fazer um lance de efeito bem no começo da partida, pois
assim trazia a torcida para o seu lado. Quando o Doutor dava um daqueles
toques de calcanhar, a galera começava a jogar com ele: “E, quando a torcida
do Corinthians entra em campo (simbolicamente, é claro), fica difícil para o
adversário”. “Dar show” pode ser algo prático, com repercussão no resultado.
Pelé diz que rezava pedindo duas coisas: para ninguém se contundir e, se o
jogo terminasse empatado, que não fosse por 0 a 0: “O pessoal vem de longe,
com dinheiro economizado durante a semana, enfrenta condução, chuva, sol.
Tem direito de receber espetáculo em troca. Então, se der empate, que seja 2
a 2, 3 a 3”. Assim falou o Rei, alguém com senso de que o futebol é também
espetáculo. O público cultua seus artistas quando estes lhe oferecem o
melhor. Repudia em caso contrário.
Ignorar esse fato revela falta de compreensão da liturgia do jogo, da sua
dramaturgia. Mesmo porque, se o futebol fosse apenas um esporte como os
outros, eles, técnicos e jogadores, estariam desempregados ou ganhariam bem
menos.
O jogo da bola tornou-se um espaço simbólico no qual paixões e significados
mais profundos são trocados entre quem o pratica e aqueles que o seguem com
devoção. Atitudes “profissionais demais”, que beiram o mercantilismo (para
não dizer o mercenarismo), destroem essa liturgia. Da qual todos eles vivem.
E para a qual vivemos nós outros, do lado de cá.

25/7/2006

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