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Globalizado, mas nem tanto

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h00

Ilusões da globalização – a gente viaja e pensa que em qualquer lugar do
mundo se está em casa. Nada. Em termos de futebol brasileiro, fiquei aqui na
Itália a ver navios, ou gôndolas, considerando que estou em Veneza – mas a
trabalho, leitor, a trabalho. Perdi a goleada do Santos em cima do Palmeiras
e, da vitória da seleção sobre a Argentina, só assisti os melhores momentos.
Pelo compacto, a seleção do Dunga deu impressão de cara nova. Também, pior
que aquela do Parreira não poderia ser. Em todo caso, nada como uma vitória
sobre os hermanos para dar moral a uma seleção. Vamos ver a continuidade do
trabalho.
Dizem que a grande figura do jogo, ou pelo menos um dos destaques, foi
Elano, com seus dois gols. Sempre gostei dele e lamentei quando o Santos o
vendeu para a Ucrânia. Sua versatilidade tática sempre foi muito útil ao
Peixe e agora talvez esteja encontrando seu lugar na seleção. Curiosa é a
vida. Elano estava insatisfeito no frio do leste europeu e quase volta ao
Brasil. A convocação de Dunga o valorizou e tornou o retorno ao Santos
impossível. Agora, com essa atuação, pode aspirar a um clube de primeira
linha na Europa.
Aqui na Itália foi dado grande destaque ao gol de Kaká, o queridinho do
Milan. A Gazzeta dello Sport, o mais influente cotidiano esportivo do país,
na prática deixa a análise da partida de lado para se dedicar ao meia, cujo
prestígio andava um tanto abalado pelo desempenho na Copa. Dá como manchete:
“Kaká, capolavoro lungo de 70 metri’’. Na chamada de primeira página, fala
de “gol à la Maradona’’ e considera como “obra-prima’’ a jogada de 70
metros, iniciada ainda na intermediária da seleção e concluída com um totó
de classe diante do goleiro Abbondanzieri.
O garoto é amado por aqui. Sentimento não extensivo a Ronaldo, sobre o qual
pesa ainda o fato de ter deixado a Inter em 2002 para jogar no Real Madrid.
Consideram-no um tanto mercenário. Em tom claramente prazeroso, os jornais
repercutem o seu afastamento da seleção. Segundo o diário As, de Madrid,
Ronaldo teria sido excluído das próximas convocações por causa do
comportamento “pouco patriótico (sic)’’ durante a Copa e também porque
jogara a responsabilidade do fiasco nas costas dos outros três integrantes
do falido quarteto mágico: Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Adriano. Os jornais
italianos falam em “Fenômeno Virtual’’ e ainda registram que Ronaldo levou o
fora da seleção e também da namorada Raica.
O engraçado é que Ronaldo era notícia há pouco tempo por aqui, pois os
arqui-rivais Milan e Inter estariam disputando sua contratação, o que acabou
não se concretizando. A interpretação dos comentaristas locais é que cada
uma das duas equipes mostrou interesse apenas por medo de que a rival o
contratasse mas, no fundo, nenhuma delas o queria. Pode ser. Mas se têm
certeza de que Ronaldo está acabado, por que tanta preocupação com ele?
De qualquer forma, o assunto maior por aqui é o jogo da Azzurra com a
França, amanhã, em Paris. Uma revanche da final da Copa, com a lembrança da
cabeçada de Zidane em Materazzi ainda fresca na memória. A Itália vem de um
pífio empate em Nápoles com a Lituânia e teme a vingança dos franceses. Mas
os analistas têm como consolo a grande atuação de Cassano, que encheu os
olhos dos tifosi com suas jogadas individuais. Numa delas, driblou três
adversários de uma vez, entrou na área e perdeu o gol. A jogada também
lembrou Maradona, mesmo porque foi realizada no estádio San Paolo, templo do
argentino na fase de ouro do Napoli.
Quem diria, a Itália campeã do mundo, pátria da retranca, vibra com os
dribles de Cassano. E já se fala por aqui num ataque de sonho quando Totti
voltar à seleção, e se unir a Cassano, o que deve acontecer apenas no
próximo ano.

29/8/2006

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