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Gol de Neymar

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h28

O que houve de incrível no gol de Neymar é que ele foi comemorado antes mesmo de acontecer. No estádio, de certo ângulo, deu para ver que a bola, chutada devagarinho e colocada, iria entrar. E que Marcos, pego no contrapé, não iria chegar a ela para defender sua meta. Aliás, ele nem foi na bola. Ficou estático. Assim, a galera santista começou a vibrar antes da bola atravessar a linha, acompanhando a sua trajetória. Esse tipo de lance, pela imprevisibilidade, eu diria até mesmo por seu caráter de exceção, poético, cria grande sensação de beleza. É algo que sai do comum, do ordinário, daquilo que acontece segundo o planejado.
Já o gol de Miranda seguiu script mais do que conhecido. Jorge Wagner cobra uma falta pela lateral do campo, levanta a bola na área e alguém surge para cabecear. A frequência com o que o São Paulo tem resolvido seus jogos com esse lance repetido chega a ser alarmante. Todos os adversários o conhecem. Todos dizem que treinam o posicionamento para anulá-lo e conversam antes do jogo porque sabem que o forte do adversário é a bola parada. E todos, invariavelmente, tomam gols do São Paulo dessa maneira. Ou a jogada não pode ser anulada ou as zagas adversárias dão prova de incompetência total. De qualquer forma, é a jogada de gol mais previsível do mundo. E, previsível que seja, vale tanto quanto o imprevisível gol de Neymar ou qualquer outro. Futebol é bola na rede, original frase que acabo de cunhar.
Aliás, o futebol, como este outro jogo, o da vida, é feito de uma nem sempre clara mescla do que se pode prever e do que não se pode. Daí sem encanto, etc.
De certa forma, os eletrizantes jogos semifinais do Campeonato Paulista são amostras dessa imponderabilidade do jogo. Claro que, para os comentaristas, a tarefa fica facilitada pelo simples fato de envolverem os quatro times grandes de São Paulo. Assim, todos os jogos serão clássicos, portanto sem favoritos claros. Clássico é clássico, e vice-versa, dizia o filósofo popular Jardel.
Mesmo assim, os dois primeiros reservaram boas doses de surpresa aos incrédulos. Houve o gol de Neymar, na verdade o coroamento de toda uma boa atuação do garoto, que vinha negando fogo em partidas anteriores. Mas, sobretudo, houve a boa postura do do Santos, que entrou como patinho feio nestas semifinais e pode sair como cisne, desalojando o (ainda) favorito Palmeiras.
Já Corinthians e São Paulo não fizeram o jogo amarrado que se imaginava, por serem dirigidos por técnicos “cascudos” como Mano e Muricy, pragmáticos e conhecidos por não darem a menor pelota para essa ficção romântica de futebol-arte ou de espetáculo. Querem ganhar, e ponto. Como as circunstâncias do jogo são às vezes mais fortes do que as determinações dos professores, a partida fluiu com muita energia. E, aos 47’ do segundo tempo, o Imponderável da Silva fez com que um belo chute de Elias se alojasse no canto de Rogério Ceni, determinando a vitória do Corinthians.
Para quem não dava nada pelo campeonato, os dois primeiros jogos da decisão falaram por si mesmos. Foram soberbos.

A saúde do imperador
Diz um personagem de Jorge Amado que a verdade mora no fundo de um poço. Pois eu digo que a verdade de cada um de nós mora ainda mais embaixo e às vezes é insondável até para nós mesmos. Assim, acredito que tudo o que se disser sobre Adriano será chute. E não um daqueles chutes certeiros do imperador, quando estava em boa fase. Será chute torto, daqueles que mandam a bola na bandeirinha de escanteio. Muita gente já se apressou em dizer que ele está doente. E por quê? Porque parece esnobar tudo aquilo que é objeto de desejo de 100% dos jogadores e motivo de admiração de parte da população brasileira. Adriano ganha um salário de sonho, mora em Milão e diz que não está feliz. Prefere a companhia da sua gente num bairro muito pobre do Rio de Janeiro. É tão absurdo, dizem, que ele só pode estar doente. Doente, para não dizer pior, porque sua atitude contraria as nossas expectativas e certezas mais arraigadas: que o dinheiro diz sempre a última palavra, que a verdadeira vida está no Primeiro Mundo e não neste pedaço atrasado do planeta, etc. Sei lá quais são os problemas de Adriano e ele deve tê-los aos montes, como qualquer pessoa. Mas desconfio que, nesse particular, ele esteja mais sadio do que todos nós juntos.

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