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Heleno de Freitas, o primeiro bad boy

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h58

9/5/2010

Algumas fotos dizem muita coisa. Uma delas, talvez a mais famosa, mostra Heleno, em seu elegante uniforme do Botafogo, pinta de galã, olhar direto na câmera, cabelos penteados com gomalina. Não fosse a camisa da estrela solitária, poderia passar por astro de Hollywood. Aliás, seu apelido – Gilda – era tirado da mais famosa personagem de Rita Hayworth, do filme do mesmo nome. Consta que foram os adversários que criaram o apelido, para irritação do atleta, comprovado mulherengo. Mas, há quem diga que os autores foram seus próprios amigos, os gozadores do famigerado Clube dos Cafajestes, do qual fazia parte. Em todo caso era assim que o chamava a torcida desafeta, em especial a do Fluminense, que não perdoava seu jeito elegante em campo. O apelido acabou adotado por seu biógrafo, Marcos Eduardo Neves, que deu o título de Nunca Houve um Homem como Heleno ao seu livro. Como sabem os cinéfilos, o filme, dirigido por Charles Vidor em 1946, é guiado por uma frase, na época famosa: “Nunca houve uma mulher como Gilda”.

Heleno foi mesmo uma das figuras mais fascinantes do futebol brasileiro, em especial em sua fase pré-televisão. Atuou em vários times como Vasco, América, Santos (uma breve passagem), o colombiano Atlético Júnior, de Barranquilla, e o Boca Júniors, mas no imaginário do futebol, faz parte mesmo é do ativo memorialístico do Botafogo, onde jogou por oito anos, sem, contudo, ser jamais campeão pelo clube. Apesar disso, é seu o maior ídolo da fase pré-Garrincha. No Botafogo marcou 209 gols em 235 jogos e era notável por sua técnica. Didi, botafoguense, e grande campeão de 1958 e 1962 pela seleção brasileira, conta em depoimento que seu colega do Botafogo era um ás com a bola no chão e mortífero com ela pelo alto. Refere-se à cabeçada mortal de Heleno, sua jogada mais característica e com a qual marcou boa parte dos seus tentos. Conta-se também que, quando jogava contra algum desafeto, o Fluminense em especial, levava um pente no bolso do calção. Usava-o para refazer o penteado impecável caso marcasse algum gol de cabeça. Fazia isso, claro, de maneira ostensiva, em frente à torcida adversária, para provocá-la.

Não existe grande coisa em termos de imagens em movimento de Heleno. Aliás, não havia nenhuma, mas parece que se encontrou alguma coisa na Argentina, pouco, em todo caso, para formar uma opinião sobre como atuava. Mas, pelos relatos, parece que foi mesmo jogador excepcional, em especial nos clubes. Sua passagem pela seleção foi relativamente modesta – 18 partidas e 15 gols marcados. Acontece que Heleno deu azar: em seu apogeu físico e técnico, a Copa do Mundo estava suspensa devido à Segunda Guerra Mundial. Poderia ter jogado na Copa de 1950 não fosse a briga com o técnico Flávio Costa. E até hoje há quem diga que, se Heleno tivesse participado, o Brasil jamais teria perdido para o Uruguai na decisão. Quem pode saber?

O fato é que Heleno brilhou nos clubes por onde passou, no Botafogo em especial. E, às suas qualidades de jogador somavam-se as de playboy, como então se dizia. Seria, em linguagem de hoje, um astro pop, uma figura midiática, alvo preferencial dos paparazzi. Talvez até acabasse no Big Brother.

Mas talvez não. Heleno era muito refinado para isso. Vinha de família rica, de fazendeiros da sua São João Nepomuceno (MG), onde nasceu 12 de fevereiro de 1920. Chegou com a família ao Rio, estudou no Colégio São Bento e, depois, na Faculdade Nacional de Direito. Tirou título de bacharel, mas foi mesmo no futebol de praia que se diplomou e encontrou a vocação. Jogava junto com João Saldanha no time treinado pelo também mitológico Neném Prancha, autor de táticas mirabolantes e frases antológicas. Tendo jeito para a coisa, Heleno decidiu se profissionalizar – e o resto é história.

Mas não a história toda, pois a de Heleno não pode ser contada apenas por suas atuações entre as quatro linhas. Ele foi mais que um jogador de futebol talentoso. Foi personagem marcante, talvez o primeiro bad boy dessa profissão. Não levava desaforo para casa, gostava do luxo, da noite, de carrões e belas mulheres. Tinha dinheiro para financiar tudo isso. Mas também se meteu com álcool e drogas variadas. E não foram esses excessos químicos que o liquidaram e sim a sífilis, que contraiu provavelmente em suas escapadas noturnas e foi responsável por seu declínio e morte prematura.

Doente, Heleno passou seis anos internado num sanatório em Barbacena, onde sua saúde física e mental foi se deteriorando de maneira progressiva e irreversível. Boa parte do livro de Marcos Eduardo Neves é dedicada a essa fase de sofrimento. E também a tentar provar que, boa parte do exótico comportamento anterior de Heleno podia ser atribuída a sintomas da sífilis, ainda não diagnosticada. Também isso é problemático e hipotético. Afinal, Heleno era conhecido tanto por sua generosidade como por sua insolência. Pela maneira como se solidarizava com companheiros e pelos insultos que dirigia a quem ousasse lhe dar um passe errado no campo de jogo. Tudo isso era Heleno, a contradição em pessoa, o que é humano e não necessariamente sintoma de doença neurológica. Heleno de Freitas morreu em 8 de novembro 1959, em Barbacena. Tinha 39 anos.

(Escrevi esse perfil de Heleno para o Caderno 2 de Domingo. Saiu muito cortado, por questão de espaço. Aqui está na íntegra)

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