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Homenagem dos invejosos

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h11

Recebo e-mail de um amigo querido, são-paulino, queixando-se de má vontade da imprensa (inclusive da minha coluna) para com o seu tricolor. Respondo a ele que hoje o São Paulo tem a maior torcida contra do Brasil. Todo mundo, fora os próprios são-paulinos é claro, reza para que o quarto título brasileiro consecutivo não vá parar no Morumbi. Por uma série de motivos, o mais óbvio dos quais é que, quando a taça vai sempre para as mesmas mãos, a disputa perde a graça.
Atrás dessa constatação, já posso ouvir as cassandras de sempre propor a volta dos mata-matas como solução. Se o sistema de pontos corridos premia sempre o mais regular, pois as oscilações (inclusive de arbitragem) se anulam entre si, o mata-mata dá mais margem ao acaso. Dá mais colher de chá para a sorte e o azar. Mesmo em dois jogos, de ida e volta, é possível pensar que um time mais fraco possa ganhar do mais forte. No sistema por pontos corridos, isso é mais difícil. É o sistema da racionalidade no futebol. E o São Paulo é o mais racional dos clubes brasileiros. Daí ser admirado por uns e detestado por outros, o que reflete a cultura de um país que desconfia da razão. Nenhum demérito nisso ¬– Freud também desconfiava e era austríaco, além de gênio. Enfim, quem acredita que o futebol deve comportar uma boa margem de irracionalidade para ser interessante não tende a simpatizar com um clube que segue o comportamento de uma empresa em busca do lucro. Esse é um ponto.
O outro é que a “má-vontade” deve ser interpretada como sintoma até benéfico pelos são-paulinos. É a bronca que se tem em relação aos vencedores contumazes, os monopolistas de taças. Sem comparar time com time, aconteceu o mesmo com o Santos da era Pelé, que tinha poucos concorrentes, como o Botafogo de Garrincha ou o Palmeiras de Ademir da Guia, e impôs uma longa hegemonia no futebol brasileiro. A tal ponto que, ao ganhar oito dos dez títulos do Campeonato Paulista dos anos 1960, “inspirou” nos dirigentes a mudança da fórmula de disputa – justamente para que os demais pudessem ter chance.
Eram outros tempos no futebol e, naquela época, os vencedores eram realmente grandes times, com pelo menos três ou quatro craques no elenco e ótimos ou bons jogadores nas demais posições. Hoje, por razões que todos conhecem mas fingem ignorar, o nível caiu e é com ele que nos temos de virar. Dentro dessa política de realismo do futebol atual, alguns clubes se dão melhor do que outros. O São Paulo é o melhor exemplo, venha a ganhar ou não o seu quarto título brasileiro consecutivo. O São Paulo é realista da administração da estrutura hierárquica até na maneira de jogar. Nada disso é de molde a despertar simpatias nos concorrentes diretos ou naqueles que assistem de fora à disputa pelos primeiros lugares.
Claro que seria mais “romântico” (no melhor sentido do termo) uma atropelada final do Flamengo, time irregular, mas que se vale de momentos inspirados, em especial de Petkovic e Adriano. Ou do Palmeiras, que antes de entrar em parafuso era o virtual campeão e investiu pesado, contratou bem e elegeu um presidente diferenciado – em que pese os destemperos da semana passada. Tudo isso seria melhor do que a fria objetividade com que o São Paulo planeja seu ano e conquista seus títulos brasileiros.
No fundo, são-paulinos, vocês podem dizer que essa má-vontade é a homenagem que a inveja presta à competência.

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