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Imagens do jogo

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h17

O que seria do futebol sem as imagens que o imortalizam? É o que se pensa ao ver (e ler) o livro-álbum Craques do Futebol (Larousse do Brasil, 224 págs., R$ 129), com fotos feitas por profissionais de várias agências e textos do cronista esportivo francês Bernard Morlino. Na edição francesa, o prefácio era escrito por um desses ídolos, o atacante Eric Cantona; na tradução brasileira, o prefácio é do jornalista Milton Neves.

Boleiro fanático, torcedor do Nice, time da cidade onde nasceu, Morlino faz, em seu livro, uma verdadeira ode ao esporte que adora. Os grandes nomes, do passado e do presente, são divididos em categorias. As fotos – estupendas – vêm acompanhadas de textos breves, que não se pretendem fichas biográficas completas, mas perfis dos atletas. O livro é dividido nas seguintes categorias: os virtuoses, os pioneiros, as muralhas, os arquitetos, os rebeldes, os reis, os pit bulls e os atiradores de elite. A capa só poderia ser dedicada ao maior de todos, ele, Pelé, fotografado no esplendor dos 17 anos, quando conquistou sua primeira Copa do Mundo.

A divisão do livro mostra que Morlino pretende abarcar as várias funções e aspectos de que se compõe o jogo da bola. Nele há espaço tanto para um virtuose como Diego Maradona quanto para um pit bull como Gennaro Gattuso. Para rebeldes como George Best e Sócrates e arquitetos, como Tostão e Wolfgang Overath. E se o gol é o grande momento desse jogo, também são fundamentais os que se empenham em evitá-lo, goleiros como Dino Zoff ou zagueiros magistrais como Franco Baresi e Paolo Maldini.

Se Morlino quer contemplar a experiência do futebol em seu todo, é óbvio que seu coração balança na direção dos grandes craques. Não por acaso, o livro abre com o capítulo sobre os “virtuoses”, no qual se inclui Pelé. Vejam só quem ele coloca em companhia do Rei: Puskas, Di Stéfano, Eusébio, Cruyjff, Maradona, Platini, Cantona e Zidane. Atacantes, armadores…e um goleiro de gênio, que brilhou na Copa de 1958 na meta da antiga URSS e ganhou o apelido de Aranha Negra – Lev Yashin, tido como melhor de todos os tempos, titular da seleção do seu país por 13 anos e do Dínamo de Moscou por duas décadas. Uma instituição. Pelé, em seu primeiro livro de memórias, fala da dificuldade de marcar um gol em Yashin. Mesmo assim, ele tomou dois da seleção brasileira no mitológico jogo de 1958, quando Pelé e Garrincha estrearam na seleção. Dois gols de Vavá, que aliás não está no livro.

Mas o Brasil não pode se queixar. Lá estão Pelé, Tostão, Sócrates, Romário, Ronaldinho, Garrincha, Ronaldo, além de José Altafini, o Mazzola, famoso no futebol italiano, embora nascido em Piracicaba e jogador da seleção brasileira antes de emigrar para a terra dos antepassados.

Nem poderia ser diferente. Amante do jogo bonito, Morlino intitula seu artigo inicial de O futebol considerado como uma das belas artes e coloca o Brasil no topo do mundo. E sabem de quem é a epígrafe desse texto? De ninguém menos que Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha. Diz Mané: “O futebol não tem mistério. É você que cria o mistério.” Grande Mané Garrincha, citado também em seu verbete em outra de suas frases imortais, aquela que dizia que a Copa do Mundo era um torneio sem graça e fácil de ganhar porque nem segundo turno tinha. Aliás, Morlino tem uma queda por esses outsiders do mundo da bola. Trata-os com toda a simpatia mesmo quando obrigado a falar de alcoolismo, como em Garrincha ou George Best, ou do vício da cocaína em Maradona.

Em alguns momentos, o estilo de Morlino lembra o do uruguaio Eduardo Galeano (autor de Futebol ao Sol e à Sombra), um dos que melhor escrevem sobre esse fascinante jogo da bola. Porque tanto a um como a outro interessa o futebol naquilo que tem de humano e mítico. Em seu aspecto de expressão cultural e, em muitos casos, redenção de condições de vida muito desfavoráveis. As fotos desses grandes boleiros olham para nós e nos interrogam. Os textos parecem tão humanísticos que algum idiota da objetividade não hesitaria em tachá-los de “românticos”. Esquecido de que se existe alguma coisa em falta no futebol de hoje é justamente um pouco de romantismo.

(Caderno 2, 15/7/09)

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