As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Imagens que ficam

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h20

26/12/2006

Chegamos à última coluna do ano e, portanto, à hora de perguntar quais as
imagens que ficaram deste 2006. Será a do Roberto Carlos ajeitando o meião
enquanto Henry entra para despachar o Brasil? O São Paulo comemorando o
título de campeão brasileiro? Ou o Internacional, vencendo a Libertadores e
depois o Mundial?
Mas por que escolher uma delas apenas, se todas foram cenas importantes,
representativas, retratos de um ano muito especial para o futebol
brasileiro. E, quando digo muito especial, não estou dizendo que tenha sido
excepcionalmente bom. Muito pelo contrário – digo apenas que foi
significativo, como aliás todo ano de Copa do Mundo o é. Mas talvez esta
Copa, por dura de engolir, tenha sido das mais instrutivas, pois marcou, de
vez e de maneira límpida, a separação entre a seleção brasileira e o futebol
jogado no País. Nesse sentido, a Copa da Alemanha foi pedagógica para todos
nós, por dura que tenha sido a sua lição.
Não se trata de voltar a feridas ainda mal cicatrizadas, mas lembrar que
talvez o torcedor tenha por fim aprendido que a seleção é uma coisa e o
futebol jogado no plano interno, outra. Essa separação, que já vinha
acontecendo nas Copas anteriores, nesta aprofundou-se e realizou-se de forma
perfeita, por assim dizer. A nata do futebol brasileiro atua no exterior e,
para essa elite, jogar pela seleção não é mais o ápice de suas carreiras.
Daí o descaso de Roberto Carlos, que apenas simboliza a indiferença quase
geral do time com a desclassificação diante da França. Perdemos, paciência,
vamos cuidar da vida, foi o que expressaram com seus gestos nossos
ex-representantes.
O outro fato do ano – a posse de Dunga como técnico da seleção – parece
relacionado com o primeiro: o desafio, para a CBF, seria, num primeiro
momento, recuperar a credibilidade da seleção diante do torcedor. Os
primeiros resultados falam em favor de Dunga, e pode ser que construa um
time competitivo, mas conseguirá reaproximar a seleção estrangeira, digo
brasileira, do homem comum? Talvez, mas acredito que aquela identificação
íntima do torcedor com a seleção seja coisa para ser lembrada nos livros de
História.
Já no plano interno, vamos aprendendo a nos virar com o que temos, e não
fomos tão mal assim. Alguns dos campeonatos regionais, mesmo apertados em
suas datas, foram interessantes. A Copa do Brasil, com seu sistema de
mata-mata, consagrou o desacreditado Flamengo e o levou de volta à
Libertadores. E o Campeonato Nacional teve um legítimo vencedor, o São
Paulo, o mais regular dos times brasileiros. Num futebol sem craques, o
Tricolor forneceu os dois nomes do campeonato – Rogério Ceni, um goleiro de
exceção, e Mineiro, um volante que sabe jogar bola. Não é pouco, em tempo de
indigência.
Os são-paulinos estão de parabéns, mas que me perdoem, pois a meu ver o time
do ano foi o Inter. Tanto pela final da Libertadores como pelo sentido épico
que o levou ao título mundial, disputado com o Barcelona Inc. e contra todas
as expectativas. Contra aquele time estelar, de DNA globalizado, o Inter
impôs sua disciplina e rigor sulistas, e realizou a maior façanha de sua
história. Jogou à gaúcha e derrotou a exuberância “catalã’’ que havia
encantado o planeta, e também o mundinho brasileiro, com seus 4 a 0 sobre o
América do México.
Mas como dizer que o Inter “jogou à gaúcha’’, se a maioria dos atletas vem
de outros Estados e o próprio técnico, Abel Braga, é carioca? – argumentaria
um idiota da subjetividade. E eu responderia que basta um jogador vestir a
gloriosa camisa colorada para, automaticamente, se tornar gaúcho da gema,
daqueles de chimarrão e bombacha. Um ótimo 2007 para todos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: