As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

In(utilidade) das lições da história

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h17

É humano, meus amigos. Gostamos de tirar lições dos fatos que acontecem. Mesmo que elas de nada sirvam para saber como devemos nos comportar no futuro. É como se a experiência acumulada não passasse de um carro com os faróis iluminando a parte de trás da estrada, e não a que vem pela frente. Era o que dizia o grande escritor mineiro Pedro Nava, autor de autobiografias admiráveis que, confessava, aumentavam demais o seu entendimento do passado, mas infelizmente em nada o preparavam para o futuro.

Talvez seja por isso que os palmeirenses não consigam tirar da cabeça o desastre no Rio diante do Fluminense. Ok, todos sabiam que o jogo seria difícil, com o Flu em ascensão e ainda motivado pela ameaça do rebaixamento. Mas quem poderia esperar 3 a 0 logo no primeiro tempo? Acho que nem o fantasma de Nelson Rodrigues, o mais fanático dos tricolores. E se o Flu, agora de René Simões, jogou bem (e, de fato, jogou) também não se deve esquecer que contou com o apagão mental do time do Palmeiras. Será que foi efeito daquele jogo no meio de semana pela Sul-Americana? Eis aí a pergunta que não pode calar.

Quem pode garantir? O problema, nos eventos humanos, é que eles não se repetem da mesma forma. Assim, tudo o que se pode fazer é uma suposição: “se” o Palmeiras, mesmo com time misto, não tivesse jogado aquela partida desgastante contra os argentinos, talvez estivesse em melhores condições para enfrentar o Flu no jogo decisivo no Maracanã. Como saber, já que o “se” não entra em campo?

O que, talvez, se possa saber é que raramente dá certo se dividir em duas competições, pois nenhum time brasileiro tem elenco para tanto. Mas, como fazer, se todo ano é a mesma coisa? Os melhores dividem-se entre o Brasileiro e a Libertadores, às vezes com conseqüências terríveis, como é o próprio caso do Fluminense, que quase ganhou o título do torneio, acabou perdendo para a LDU, entrou em depressão profunda e esteve até há pouco ameaçado de cair para a Segunda Divisão.

Já os remediados contentam-se com a Sul-Americana, esse patinho feio das disputas futebolísticas latino-americanas. Mas não é que o técnico do Santos, Márcio Fernandes, afirma que seu time ainda “sonha” com a Sul-Americana? Sonha? Se, por acaso, no ano que vem o Santos montar um time melhorzinho, e estiver disputando o título ou vaga para a Libertadores de 2010, certamente reclamará que a Sul-Americana lhe atrapalha a vida. Isso se conseguir a vaga com a qual “sonha”.

Ou seja, os times brasileiros sabem que não dá certo se dividir em duas competições porque não dispõem de infra-estrutura para tanto. Falta elenco. Mas, ao mesmo tempo, esfalfam-se a mais não poder para estar na Libertadores, ou, em falta desta, na Sul-Americana. Típico caso em que o olho é maior que a boca, como se diz lá no interior.

LIÇÃO APRENDIDA?

É de se desejar que, agora que o Corinthians voltou de fato à Primeira Divisão, tenha aprendido de vez que não compensa se meter em trapalhadas financeiras para montar um grande time. Não adianta fazer espuma se não há chope por baixo. Esse tipo de expediente desesperado, a parceria com mafiosos, cobra juros muito altos. Altos demais, na verdade. Ninguém pode pagá-los. Mas será que os clubes, e não falo apenas do Corinthians, aprenderam de fato essa lição tão óbvia?

(Coluna Boleiros, 28/10/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.