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Jogar “à brasileira”

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h19

19/12/2006

Um jornalista catalão disse que o Barcelona foi surpreendido pelo Inter,
pois Frank Rijkaard esperava encontrar um time que jogasse “à brasileira”. O
comentário é típico de um europeu. Autocentrado. Europeus olham para a
Europa. E, com temor reverencial, para os EUA. O resto do mundo não
interessa. Se prestassem alguma atenção ao nosso campeonato não teriam se
surpreendido. Saberiam que, já faz algum tempo, os times brasileiros não
jogam “à brasileira”, pelo menos não no sentido estereotipado que a
expressão tomou: jogo ofensivo, lúdico, com pouco cuidado na marcação e
indisciplinado na parte tática. Clichês do passado. Os melhores times do
Brasil, São Paulo e, justamente, o Inter, jogam “à européia” – se for para
usar outro clichê. São aplicados e não se descuidam da marcação. Saem para o
jogo quando podem, na boa.
Não podendo contar com grandes craques, por motivos que estamos cansados de
saber, os melhores times brasileiros devem se valer de um conjunto
solidário, no qual os bons jogadores ainda disponíveis têm de se somar e se
aplicar para compor um conjunto coerente e forte.
Foi o que fez o Internacional contra o Barcelona, e por isso venceu. Sim,
venceu por circunstâncias, como pude comprovar vendo o tape do jogo,
repetido pelo SporTV ontem à tarde. Não assisti à partida no momento em que
se realizava pois estava dentro de um avião, voltando de Cuba. Quando
cheguei, a primeira coisa que fiz foi perguntar ao funcionário da alfândega
como havia sido o jogo. E ele me informou da vitória do Inter. Fiquei
contente, mas não muito surpreso. Afinal, o Inter repete, passo a passo, a
trajetória do São Paulo no ano passado.
Chega a Tóquio, passa com dificuldade pelo primeiro adversário enquanto o
rival europeu dá show na estréia. O time brasileiro chega à final como
azarão, joga com intensidade e disciplina tática e consegue o 1 a 0 que lhe
dá o título. Histórias muito parecidas. E exemplares. O Inter venceu por
circunstâncias. Verdade. O São Paulo também. Ou alguém já esqueceu que o
Tricolor sofreu forte pressão e o Liverpool teve 3 gols (corretamente)
anulados por impedimento? Já o Barcelona construiu algumas oportunidades de
gol e poderia ter marcado.
O jogo me pareceu muito igual e, quando o Internacional teve a sua chance
(porque foi única), a aproveitou muito bem. Futebol é isso. O mérito do
Internacional foi ter igualado o jogo contando com atletas tecnicamente
inferiores aos do Barcelona. E nisso está a mão de Abel Braga, ao
compreender que marcar sob pressão era a chave para seu time colocar-se no
nível do rival estelar. Igualou-se e então o jogo pôde ser decidido em
detalhes. Poderia ter sido um ou outro. Foi o brasileiro. Adorei. Não por
sentimento nacionalista, pois passei da idade. Mas o que tenho eu a ver com
uma multinacional da bola como o Barcelona, que, como seus confrades
europeus, se impõe pela força da grana? Então, viva o Inter!
MELHOR DO MUNDO
A vitória de Fabio Cannavaro como melhor do mundo me parece justa. Foi o
melhor da Copa e a Copa foi o acontecimento futebolístico do ano. Logo, deu
a lógica. Mais do que isso: o fato de um defensor ganhar o troféu pela
primeira vez diz tudo sobre o que foi a Copa da Alemanha e o que é o futebol
atual. Outro detalhe que simboliza o futebol de hoje: entrega de prêmios na
Ópera de Zurique, com música de Mozart. Futebol de fraque e cartola.
Gostaria demais de entrar na cabeça de pagodeiros como Ronaldo e Ronaldinho
Gaúcho para saber o que pensaram durante a execução de árias do Dom Giovanni
e A Flauta Mágica. A não ser que tenham mudado mais ainda do que parece.

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