As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Jogos eternos

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h18

8/1/2008

O futebol, como a vida, é feito de rotina e de exceções, e ambas são
necesssárias. Mas o que fazer se nos lembramos mesmo é daquilo que sai da
norma e vem marcado por alguma circunstância excepcional? São assim os
grandes jogos, aqueles que ficam para a história, para o bem ou para o mal.
Quem poderá jamais esquecer os 2 a 1 para o Uruguai na Copa de 1950? Inútil
alguém dizer que nem era nascidos na ocasião. Basta ser brasileiro e gostar
de futebol para ser marcado por essa derrota mítica. Há muitos outros
exemplos: as finais de Copas do Mundo em que o Brasil esteve envolvido (como
apagar da memória o fiasco de 1998 ou a glória de 1970?); ou aquele
Corinthians 1 x Ponte 0, que tirou a Fiel da fila em 1977? Ou o clássico
Santos 5 x Fluminense 2, que os santistas lembram como “o jogo de Giovani”?
Enfim, cada um de nós tem um ou vários jogos de coração, que colecionamos
com o amor que os bibliófilos dedicam aos livros raros e os cinéfilos aos
filmes clássicos.
A coisa boa é que o culto aos jogos históricos tem chegado à forma de livro.
Há uns dois anos, o jornalista Alexandre Petillo teve a boa idéia de
organizar um volume chamado Meu Jogo Inesquecível. Petillo reuniu um time
variado para contar suas memórias futebolísticas – de Juca Kfouri a Roberto
Dinamite, de Chico Buarque a Luiz Felipe Scolari, num total de 56 jogos que
marcaram época. Dei minha modesta contribuição escrevendo sobre Santos 4 x
Milan 2, aquela épica virada, sob chuva e num Maracanã lotado. Apesar de bem
criança em 1963, foi esse o jogo que definiu a minha maneira de sentir e
entender o futebol. E a própria vida.
Por isso foi uma surpresa muito agradável receber o novo livro de Odir
Cunha, Donos da Terra, que narra o antológico Santos x Benfica, no Estádio
da Luz, em 11 de outubro de 1962, quando o time de Pelé ganhou seu primeiro
título Mundial.
Esse jogo tem uma particularidade. Pelé dizia que essa era a sua partida
inesquecível, aquela em que jogara como nunca. Dá para imaginar? O fato é
que o Santos já havia vencido o Benfica no Maracanã por 3 a 2, placar
apertado em jogo difícil. Se, atuando em casa, o Benfica ganhasse o segundo,
forçaria a terceira partida, a “negra”.
Diz a lenda que em Lisboa já se vendiam ingressos para o terceiro jogo, pois
no Estádio da Luz o Benfica não perdia de ninguém. E havia outro tira-teima
dentro de campo, o duelo particular entre Pelé e Eusébio, o grande
moçambicano que se tornou o maior jogador português de todos os tempos. Qual
dos dois seria o melhor? Bem, para os brasileiros não havia dúvidas; mas os
europeus achavam que o Pantera, como chamavam Eusébio, podia ser ainda maior
do que o Rei. Mas, como escreve Odir, “Se Eusébio era a Pantera, Pelé era a
síntese de todos os bichos”.
E assim, no final, deu Santos 5 x Benfica 2 e todos ficaram sabendo quem
mandava no futebol do planeta. Pelé fez três, Coutinho e Pepe completaram o
placar. O Santos chegou a abrir 5 a 0 e só tomou dois gols depois de
relaxar, no final do jogo, com Eusébio aos 41’ e Simões aos 44’ do segundo
tempo. Gols de honra, para salvar a cara de um grande time.
Odir Cunha descreve o jogo, dá o contexto da época, entrevista os jogadores.
E revela que só um dos portugueses mostrou má vontade ao falar daquela noite
mágica em Lisboa – justamente ele, Eusébio, que havia perdido o título e o
duelo com Pelé. Donos da Terra nos permite reviver essa época de ouro do
futebol. Não para que nos paralisemos de nostalgia, mas para lembrarmos que
aquilo existiu. E, o que foi possível um dia, pode voltar a sê-lo, ainda que
pareça improvável.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: