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Lições de ética do futebol

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h47

Um dos encantos do futebol é que ele serve como laboratório para questões éticas que enfrentamos em nossa vida comum. Esse final de Campeonato Brasileiro vem sendo rico nesses exemplos. O maior deles, o chamado “entrega ou não entrega?” Times devem entregar partidas em cujo resultado já não têm maior interesse, apenas para prejudicar seus adversários?

O caso mais notório, o dos últimos dias: o São Paulo deveria ter entregue o jogo para o Fluminense de modo a prejudicar o rival Corinthians? O resultado de 4 a 1 para o Flu só fez aumentar a discussão. O São Paulo teria feito algum esforço para evitar a derrota, ou deixou-se vencer, sem maiores problemas? Como saber, uma vez que toda a decisão ética é de foro íntimo? Como adivinhar o que vai pela cabeça dos jogadores?

Alguns casos mais ou menos recentes interessantes para se lembrar. No ano passado, o mesmo São Paulo que hoje é acusado de amolecer para o Fluminense, acusou o Corinthians de não ter feito o menor esforço para ganhar do Flamengo no ano passado. O Flamengo, lembremos, atropelou na reta final e conquistou o título do Campeonato Brasileiro.

Há poucos dias, pela Copa do Nordeste, o Vitória e o Treze da Paraíba jogaram uma partida estranha em que ninguém parecia disposto a vencer. O empate desclassificava o Bahia. Os exemplos estão em toda a parte. Há pouco, a gloriosa seleção brasileira de vôlei perdeu um jogo, resultado que lhe abria caminha em tese mais fácil rumo ao título. Já houve coisa assim em Copa do Mundo – com o empate entre as duas Alemanhas (na época o país era dividido), resultado que classificava ambas – em detrimento, claro, de um terceiro concorrente.

Claro que existem aí sutilezas, que merecem ser levadas em conta. Não se trata, nesses casos, de corrupção pura e simples. Quanto a essa não resta dúvida: é condenada por todas as pessoas de boa fé. Não estamos diante de casos em que um indivíduo ou uma equipe se vendem por dinheiro. Apenas diante de algo mais impalpável que a vantagem material: uma equipe ou um indivíduo simplesmente deixa de dar o melhor de si em determinada circunstância. Isso torna tudo mais difícil. Como provar que o São Paulo, se quisesse, poderia ter batido o Fluminense em Barueri? Falando de futuro: como provar que o Palmeiras fará de tudo para vencer o Fluminense e dar o título ao Corinthians na próxima rodada. E isso, sabemos, com o Palmeiras já não desejando o temendo nada do Brasileiro e concentrando todas as suas energias na fase final da Copa Sul-Americana?

Notaram que a coluna de hoje está cheia de interrogações? É que o problema ético se define mais por perguntas que por respostas. Mas, para a torcida parece não haver dúvida alguma. Que o digam as campanhas nas redes sociais pelo “entrega” e as bandeiras do Fluminense entre torcedores são-paulinos. Devemos condená-los? Ou o sabor da vingança sobre um terceiro, o Corinthians, justifica a contradição de comemorar gols do adversário sobre seu próprio time? A cada um de decidir sobre tema tão ingrato.

Em toda essa polêmica, lembro-me de um caso já um tanto distante, quando o São Paulo, caso se deixasse vencer pelo Juventus, condenaria o Corinthians ao rebaixamento à 2ª divisão do Campeonato Paulista. A torcida do tricolor era favorável à entrega do jogo. Mas não contava com a integridade do atacante Grafite, que fez dois gols e salvou o rival Corinthians da degola. O que ele ganhou com isso? Nada, em termos palpáveis. Apenas ficou em paz com a sua consciência – o que é um bem imenso. Imaterial mas incomensurável. Passa por aí a questão ética: em determinadas situações devemos fazer certas coisas, sejam quais forem as conseqüências dos nossos atos. E ponto final.

Para a pessoa verdadeiramente ética, é impossível não sê-lo.

Boleiros, 23/11/2010

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