As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Lições morais e outras bossas

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h59

É fato que no futebol nos ocupamos mais em discutir o extra-campo do que o
jogo propriamente dito. Não se trata apenas de problema dos cronistas. Todo
mundo faz a mesma coisa, a torcida incluída. Talvez seja inevitável. Como
imitação da vida, o futebol e seu entorno nos convidam sempre a tirar
ensinamentos rápidos de todo o episódio, lições de vida, generalizações
filosóficas e, inclusive, discussões de ordem moral, estas tão na ordem do
dia da nação.
O último tema apaixonante tem sido o comportamento de Carlitos Tevez. Não
sei como o caso vai terminar, ou mesmo se já terminou, entre o tempo que
levei escrevendo esta coluna, ela sair publicada em papel e ser
eventualmente lida antes de embrulhar o peixe. Nem sei direito quem tem
razão neste particular, pelo simples e bom motivo de que tudo pode ser
olhado de pelo menos dois lados diferentes e às vezes opostos.
De um deles, vejo o capitão do time desrespeitado por um técnico mandão, que
costuma mesmo pisar nos calos das estrelas para afirmar sua autoridade. Quem
pode gostar desse tipo de truculência? De outro, vejo o craque da equipe
fugir à sua responsabilidade e deixar na mão um time do qual era (ou ainda
é?) ídolo, com seus colegas lutando para sair da zona do rebaixamento. Onde
está a verdade? Ali, aqui?
Num mundo perfeito, poderíamos ter assistido a um Tevez legitimamente
revoltado, carregado de razão, que teria colocado de forma clara a sua
aversão ao técnico pedindo para ser negociado na primeira oportunidade. Mas
sem por isso abandonar o time às traças. Com tal chefe eu não trabalho, mas
não abandono meus companheiros quando o barco está fazendo água e à deriva.
Jogaria contrariado, e com todo o empenho que sempre o caracterizou, até que
a situação fosse resolvida de uma maneira ou de outra. Isso seria
profissionalismo, como eles gostam de dizer. No mais alto grau e com
adicional de dignidade.
Já no mundo real, não sabemos (eu pelo menos não sei) se Tevez agiu certo ou
errado, se o Leão é o maior culpado, ou se o Dualib ou o Kia, ou ambos,
detêm a maior parcela de responsabilidade no imbróglio todo. Pode também ser
uma jogada para apressar a sua saída do clube em direção à Europa, com
excelentes pretextos fornecidos por Leão, mas também pela brutalidade da
torcida, a violência de São Paulo, etc e tal. Como saber ao certo? Sendo o
futebol ainda envolto em toda uma simbologia de ordem afetiva, ainda há
certo pudor em dizer “saio daqui porque lá vou ganhar mais e ponto final”.
Sempre é preciso dourar a pílula.
Há um fato que vai além desse episódio particular – a dificuldade de se
cumprir contratos, típica do Brasil. Tevez não é o primeiro nem será o
último a dar uma banana para o seu clube quando lhe convém, por justo que
possa de fato ser o seu desagrado com a maneira como foi tratado por Leão.
Basta lembrar do ainda recente caso de Robinho, tratado a pão-de-ló por
dirigentes e torcida e que, igualmente, mandou seu clube às favas quando lhe
apeteceu mudar-se para Madri. Ambos, vale repetir, com contratos em vigor e
salários em dia. Imagine você, amigo leitor, imaginemos todos nós, o que
aconteceria com as nossas carreiras profissionais se nos déssemos ao
desfrute de tratar nossos contratos de trabalho com esse descaso. Logo
seríamos ejetados do mercado, ou não?
É bem possível que casos como esses se repitam com maior freqüência, sempre
que houver conflito de interesses entre jogadores e clubes. É a justa
expressão da bagunça, da, na prática, ausência de normas que impera no
futebol brasileiro. Nesse vale-tudo consensual, as quebras de acordo são
tratadas com toda a leniência e cada um pode tirar desses casos a moral que
melhor lhe convier. E todos terão os seus motivos e as suas razões.

29/8/2006

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.