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MacDonald’s da bola

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h50

A Copa da Alemanha será lembrada por sua organização e belos estádios, não
pela qualidade do futebol. Prevaleceram os sistemas defensivos sobre os
ataques e o que mais se viu foram jogos amarrados, nos quais o medo de
perder ganhou de goleada da vontade de vencer.
Foi o Mundial dos técnicos e não o dos craques. Pouco veio de quem tanto se
esperou, como Riquelme, Robinho, Rooney, Messi, Ronaldinho Gaúcho. Certo,
entre os 64 jogos salvam-se alguns. A goleada da Argentina sobre Sérvia e
Montenegro levou a pensar que ali havia um time superior, o que se desmentiu
depois. A “batalha de Nuremberg”, Portugal x Holanda, condenada como
violenta, foi comovente pela entrega dos jogadores. A vitória da Itália
sobre a Alemanha tornou-se exemplo de como se joga uma Copa do Mundo. Houve
também o baile de Zidane sobre o Brasil, extraordinário canto do cisne de um
fora de série. Mas ali ele estava jogando entre fãs e contra o vento. Na
continuação, marcado, não rendeu a mesma coisa, e ainda assim sai com o
troféu de craque da Copa, que eu daria a Cannavaro por simbolizar melhor o
espírito desta competição.
Houve tudo isso, alguns jogos e emoção, mas enfim é pouco para encontro
dessa magnitude, que em tese reúne os melhores jogadores e times do planeta.
Uma Copa do Mundo é uma espécie de conferência de cúpula quadrienal do
futebol. E o que nos disse esta, de 2006?
Se me permitem uma generalização, esta Copa nos diz que está entrando em
vigor um modelo único de jogo – o europeu, com algumas variantes. Não apenas
porque a partir das semifinais o torneio virou uma Eurocopa, mas porque a
grande escola concorrente – a sul-americana – dá sinais claros de estar
sendo absorvida pela outra. Deixemos a África de lado, porque seu jogo livre
e espontâneo, que poderia ter evoluído para algo diferente, já foi
devidamente domesticado pelos treinadores europeus que lá prestam seus bons
serviços.
Fiquemos, então, com a antiga escola sul-americana, antes a mais poderosa e
invejada do planeta, em especial a brasileira, cinco vezes campeã do mundo.
Essa escola começou a entrar em declínio a partir do momento em que decidiu
exportar todos – todos! – os seus craques. Desenraizados, são obrigados a
reaprender o jogo na Europa, onde têm de assimilar outro estilo.
Gente de cabeça colonizada, como Parreira, completa o serviço: importador de
sistemas de jogo, acha que só lá fora os brasileiros melhoram, amadurecem,
ganham consciência tática. Garrincha e Pelé, como lembrou Roberto Pompeu de
Toledo em sua coluna, dispensaram tal “amadurecimento”. Estranhos a si
mesmos, exportadores de estrelas e importadores de fórmulas de jogo, os
sul-americanos promoveram o maior fiasco coletivo desta Copa.
Preocupado com a seca de gols, Joseph Blatter fala em aumentar o tamanho das
traves. Mas a qualidade de uma partida não se mede pelos números do placar.
Brasil 1 Inglaterra 0, na Copa de 1970, foi um dos grandes jogos da
História. Isso porque havia em campo excepcionais jogadores, enfrentando-se
com arte e fúria, servindo-se de estilos tão eficientes como contrastantes.
Era a Escola Inglesa contra a Escola Brasileira, dois mundos que se
afrontavam, duas compreensões distintas sobre o jogo, num combate
inesquecível, cheio de alternativas e lances antológicos. Já em 2006 não
houve uma “anti-Itália” para confrontá-la e checar qual dos estilos era
superior.
A Copa de 2006 foi ruim porque esse encontro entre diferentes está cedendo
lugar ao modelo único europeu, aquele que Parreira chama de “futebol
mundial”, de gosto padrão, uma espécie de McDonald’s da bola.
Os mestres-cucas dessa cozinha de baixo repertório são obviamente os
técnicos da escola Parreira. Não são eles os donos do restaurante. Mas é com
eles e sobretudo com a globalização selvagem do futebol que Blatter deve se
preocupar, não com a altura das traves ou a lei do impedimento.

11/7/2006

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