As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mais uma vez o mando de campo

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h34

8/4/2008
Todo ano é a mesma conversa fiada, e você já deve até estar acostumado. Os
dois jogos vão ser no Morumbi ou os demais clubes têm o direito de mandar as
partidas decisivas em seus próprios estádios? E todo ano são usados os
mesmos argumentos por quem detém o poder: é uma questão de segurança, o
gramado é melhor, a renda é maior, o futebol é profissional, negócio é
negócio, etc. Quem agüenta?
Ainda mais quando começam a puxar histórias do passado para argumentar que o
mando de campo não é fator decisivo; que Palmeiras, Santos e Corinthians já
foram campeões no Morumbi, que o São Paulo já perdeu em sua casa, etc. e
tal. Como se alguém houvesse dito que o mandante ganha sempre. Fosse assim,
nem precisaria haver a disputa. Agora, que jogar em casa é fator positivo a
mais para qualquer time, parece não haver dúvida. Pelo menos entre pessoas
honestas e de boa-fé.
Dizer que jogar em seu estádio é irrelevante me parece o máximo do cinismo.
Significa encontrar uma desculpa esfarrapada para justificar o autoritarismo
da Federação. Avalie, por exemplo, a diferença de desempenho do Santos
dentro e fora da Vila Belmiro para ver se o fator campo não tem influência
no resultado, apenas para citar o caso de um time que ficou fora das finais,
mas é quase sempre prejudicado por essa manipulação dos mandos de campo.
Perguntem a um argentino, ou melhor ainda, a um brasileiro, se é a mesma
coisa enfrentar o Boca Juniors dentro da Bombonera ou fora do seu estádio. E
assim por diante.
Penso que o foco do debate deveria ser outro. Deveríamos talvez deslocar a
discussão da conveniência para a justiça. Aliás, fala-se muito em justiça no
mundo do futebol, mas ela é pouco praticada. Basta ver o que sofrem os times
pequenos na mão da arbitragem (alguém mandaria repetir aquele pênalti se
Rogério Ceni estivesse defendendo e não cobrando? Mas, como era o pobre
Juventus…). Enfim, para ir direto ao ponto: quando chega a hora da onça
beber água, com apenas quatro classificados para disputar o título, alguns
preceitos básicos deveriam ser respeitados. Cada clube exerce o mando em seu
estádio. Se esse estádio não tem condições de segurança ou gramado adequado,
não deveria ter sido usado ao longo do campeonato. No entanto, se por razões
econômicas um clube resolver abrir mão do seu direito para jogar no campo do
adversário, que exerça a opção e responsabilize-se por ela diante da sua
torcida. E acabou-se.
Tudo parece muito simples. O São Paulo tem o direito de jogar em seu campo,
o Palmeiras tem o direito de jogar no Palestra, Guará e Ponte Preta têm o
sagrado direito de disputar esses jogos tão importantes para suas histórias
em seus estádios e diante de suas torcidas. Jogar no Morumbi pode até ser
mais conveniente. Mas será justo?
Isso tudo é tão óbvio que nem deveríamos perder tempo discutindo o assunto.
E, no entanto, ele retorna, a cada final de Campeonato Paulista. Uma
pergunta não pode calar: por que os mesmos cartolas, que agora reclamam de
injustiça, assinam o regulamento antes do campeonato, atribuindo à Federação
o direito de escolha dos estádios para semifinais e finais? Não seria mais
lógico não assinar esse tipo de cláusula leonina? Mas então talvez não
houvesse lugar para acordos de bastidores pouco claros. Sabe quem sai
perdendo com tudo isso? Você, torcedor. E, por tabela, o próprio futebol.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.