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Mão na bola nos campos da vida

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h35

15/4/2008
Bom, a esta altura do campeonato já estamos todos de acordo que o primeiro
gol do São Paulo foi irregular e, ao contrário do que afirmou Paulo César de
Oliveira, não se tratou de um “toque involuntário” do atacante. Adriano,
malandramente, viu que não alcançaria a bola com a cabeça e meteu o braço na
jogada. Enganou direitinho o juiz e a bandeira. E, sorrindo, confessou o que
havia feito.
A admissão da “culpa” incrimina Adriano? Fosse o futebol outro tipo de
atividade e essa confissão bastaria para invalidar o gol, talvez o jogo, e
suspender o jogador. Afinal, foi uma jogada fora da lei. No futebol, vale o
que acontece na hora. Depois, não adianta chorar, o que às vezes é
inevitável. Disse Adriano que tudo isso faz parte do futebol. E lembrou o
gol de Maradona na Copa de 1986, contra a Inglaterra, com a “mano de Diós”.
Lembro que, naquele mesmo jogo, Maradona fez outro gol, este legal e de
antologia, em que saiu da sua defesa e foi driblando inglês em cima de
inglês, até acabar na cara do goleiro, quase entrando com bola e tudo.
Lembro também que, pouco antes dessa Copa e desse jogo, houvera a guerra das
Malvinas, na qual a Inglaterra reconquistara a faixa de terra que os
militares argentinos haviam retomado num espasmo de patriotismo para consumo
interno.
A forte Inglaterra havia recuperado a sua ilhota gelada como quem tira um
doce de criança, mas muitos jovens argentinos pereceram naquele conflito
inútil. Na Copa, as feridas ainda estavam abertas. O jogo era uma espécie de
acerto de contas simbólico entre os dois países. Para a Argentina, uma
revanche daquele outro jogo, bem real e muito mortífero.
Pois bem, os argentinos exultaram com aqueles 2 a 0, e com todas as razões
do mundo, futebolísticas e outras. Tempos depois, fizeram uma enquete: qual
dos dois gols era o favorito da torcida? O irregular ou o gol de placa,
antológico, um símbolo eterno do futebol-arte? Deu o gol de mão. Talvez, no
imaginário dos torcedores, fosse mais gostoso ganhar dos ingleses na
malandragem, na catimba, do que pela arte límpida de um futebol de sonho.
Tenho certeza de que esse pensamento não é exclusivo dos irmãos argentinos e
que há muitos são-paulinos vibrando com a malícia do Imperador. Antes que me
sacrifiquem no altar da moral e dos bons costumes, vou logo avisar: não
estou elogiando esse tipo de comportamento; apenas constato que existe nos
campos de futebol, provavelmente desde que a bola começou a rolar. E atire a
primeira pedra o palmeirense que puder dizer para si mesmo que não estaria
feliz como um periquito caso a situação fosse inversa. Assim é o futebol,
assim é a vida, assim são as pessoas, em sua falibilidade. “A man is a man”,
dizia Shakespeare que, com seu gênio, sabia o que era lícito esperar, e o
que não era, de seus semelhantes.
E é por isso mesmo, por não podermos confiar cegamente no fair play dos
nossos adversários, e muitas vezes nem no dos nossos aliados, que inventaram
uma instância fora de nós e que não representa nem a mim e nem ao outro, mas
a uma entidade abstrata chamada Justiça. Nas quatro linhas, essa figura é a
do juiz e seus auxiliares. Nesse campo mais amplo, nesse terreno de várzea
que é a vida de todos nós, é o sistema judiciário que exige o cumprimento do
contrato que duas pessoas celebram e impede que um, como o outro, coloquem a
mão na bola, por assim dizer. Mas tudo o que é humano é falível.

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