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Me engana que eu gosto

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h35

Amigos, também no futebol existe o pensamento politicamente correto, que, como se sabe, é composto de pequenas (e às vezes grandes) hipocrisias. Agora ele se manifesta na declaração de muitos palmeirenses de que não têm particular interesse em impedir o título do Corinthians. “Queremos apenas jogar bem e ganhar”, disse Felipão.
No outro lado da história, a mesma coisa. Luxemburgo também disse que deixava para a torcida a possível satisfação de tirar o título do Vasco. Queria apenas jogar bem, etc. No caso do Flamengo, com a motivação adicional: está em jogo uma vaga na Libertadores. No Palmeiras, nem isso: apenas a satisfação pura e simples em…botar água no chope do principal adversário.
Todo mundo sabe disso. Mas não se diz. Não fica bem a profissionais dar mostras de tamanha passionalidade. Deixa-se essa manifestação emotiva para a torcida que, esta sim, é amadora e, mais que amadora, pode-se deixar levar por arroubos da paixão, tanto positiva quanto negativa.
Os técnicos deram essas declarações diplomáticas e dificilmente os jogadores falarão de modo diferente. Dirão que manda a ética do esporte que se jogue seriamente, etc. Eu ficaria surpreso se algum deles confessasse o prazer que seria tirar o pão da boca de um rival muito próximo. Mesmo porque gente como Vampeta ou Edmundo, que poderia fazer esse tipo de declaração, já não está mais na atividade. Hoje predominam os bons moços, de frases sensatas e sem sal ditadas pelos profissionais do media training. Nada que possa comprometê-los no futuro que, como costumam dizer, a Deus pertence.
Mas diplomacias e pequenas hipocrisias à parte, o que não se pode deixar de reconhecer é o acerto de colocar os clássicos regionais na última rodada do campeonato. Senão, é possível que teríamos um repeteco de outras edições, com times desmotivados e – pior – interessados em entregar o jogo para prejudicar o rival direto.
Essa sábia decisão de deixar os derbys para o fim aquece o desfecho do campeonato até à temperatura máxima. Isso por obra e graça da matéria-prima da qual são feitas todas as disputas: a rivalidade. Sem ela, todo futebol vira um casados x solteiros. Aliás, a comparação é injusta. Já vi muita gente sair estropiada depois desses rachas de fim de semana. O bicho homem não gosta mesmo de perder. Quando o assunto é futebol, menos ainda. E só há uma coisa pior do que perder: é ver o seu rival ganhar. É curioso como uma atividade tão bela como o futebol se nutra (também) de instintos tão baixos.
Mas assim é a vida. Complexa e contraditória como a natureza humana. Porque se existe baixeza em desejar o pior para o seu rival, também há grandeza em reconhecê-lo em seus feitos legítimos. Assim como todo torcedor já viu cenas de sadismo com o sofrimento alheio, também já testemunhou a generosidade. Por exemplo, quando nos compadecemos de um time rebaixado para a segunda divisão e nos sentimos solidários com a torcida machucada. Ou, quando aplaudimos uma bela jogada do adversário, reconhecendo a arte, mesmo quando contra o nosso time. Vi Pelé ser aplaudido várias vezes pelos rivais. Vi a torcida santista homenagear Marcelino Carioca quando ele marcou um gol maravilhoso na Vila Belmiro contra o Santos. Somos assim. Cheios de contradições e nuances. Por isso o futebol nos representa tão bem.
E, por isso mesmo, me desculpem os corintianos, teria sido uma pena para campeonato tão bom se tivesse sido resolvido já no domingo. Nos privaria da emoção suprema da última rodada. Se, ao que tudo indica, o título vier para o Corinthians, que seja da maneira como eles parecem gostar, com o máximo de sofrimento. Se for para o Vasco, quer merecimento maior?

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