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Metáforas da bola

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h07

3/10/2006

Como reage um time que está com a mão na taça, toma gol aos 45 minutos do
segundo tempo e agora se vê obrigado a disputar uma prorrogação desgastante?
É no que deve estar pensando o atual ocupante do Palácio do Planalto, dado a
metáforas futebolísticas. O outro lado pode estar se dizendo exatamente o
contrário: chegamos até onde ninguém pensava que fôssemos capazes; é hora de
pressionar, aproveitar que o adversário está tonto e virar o placar.
Pois é, o grande jogo da política, que cancelou a rodada de fim de semana do
Brasileirão, acaba apenas no dia 29. Tudo o que se pode esperar é que a
arbitragem não interfira no resultado, que haja um pouco de fairplay e vença
o melhor. Gostaria também de ver inteligência tática e jogo bonito. Isso
tudo eu não ouso esperar, mas que pelo menos ninguém faça gol de mão.
Não é só o corintiano Lula, ou o santista Alckmin, que podem “pensar”
futebolisticamente. Nós, comuns mortais, fazemos isso o tempo todo, enquanto
vamos disputando com nossos pobres recursos as peladas desta vida, na
várzea, campo cheio de buracos, imprevistos e beques truculentos. Por isso,
o futebol entrou na linguagem corrente – porque é uma boa analogia com a
vida. Falamos em virar o jogo quando estamos em alguma desvantagem,
exatamente como fez o PSDB na corrida presidencial. Sentimo-nos mandados
para escanteio quando uma namorada nos deixa ou o patrão nos mostra o
bilhete azul. Aliás, este tipo de bilhete tem, para o interessado, valor de
um cartão vermelho. A mesma namorada, ou patrão, se razoáveis, exibem cartão
amarelo e nos dão outra chance. Mas isso é raro.
Levamos uma bola no meio das pernas quando alguém nos engana, e ficamos com
cara de tacho se, em alguma circunstância, somos pegos em flagrante
impedimento. Se alguma tarefa ou missão nos parecem fáceis a princípio, mas
depois acabamos nos enroscando nelas, dizemos que tomamos um frango ou uma
bola nas costas, como se fôssemos goleiros incompetentes ou o Roberto Carlos
em seus melhores dias. Quando alguém é considerado muito capaz, mas não
realiza nada à altura das expectativas, dizemos que faltou garra, como
faltou à seleção brasileira na Copa da Alemanha, ou que entrou em campo de
salto alto, o que vem a dar na mesma. Nas horas difíceis, aconselhamos um
amigo meio vacilante a “chegar junto”, como recomendava o mestre Oswaldo
Brandão aos seus zagueiros. Força na dividida, porém com lealdade.
Voltando ao jogo propriamente dito, fiquei meio encafifado com uma pesquisa
sobre os ídolos brasileiros encomendada pelo Sportv ao Instituto Ipsus e
publicada no domingo pelo Globo. Os ídolos são todos de exportação, e isso
nós já sabíamos. Como a pesquisa foi feita antes da catástrofe na Alemanha,
Ronaldinho Gaúcho figura em primeiro lugar, citado por 32% dos
entrevistados. Mas o que mais me impressionou foi o segundo colocado, com
25%: “nenhum”. Pois é, quando se pergunta aos brasileiros qual o seu ídolo
no esporte, um quarto responde que não tem nenhum. Pior: o “nenhum” é
vencedor na enquete entre as mulheres: 32% delas não elegeram qualquer
atleta – Ronaldos, Sennas ou Daianes.
Como todo o resto da pesquisa confirma o interesse no esporte em geral, e no
futebol em particular, só posso chegar a uma conclusão – estamos a caminho
de uma prática esportiva sem ídolos, impessoal. No caso do futebol, que é a
minha praia, torcemos pelas nossas camisas, independentemente de quem as
veste, pois sabemos que o jogador fica seis meses e cai fora. Quanto à
seleção, a sentimos cada vez mais distante, estrangeira e desligada de nós.
Sei não, isso não vai dar certo.

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