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Mudar para ficar na mesma *

Luiz Zanin Oricchio

08 de abril de 2015 | 14h40

Amigos, são tantas as variáveis do futebol que ninguém pode se gabar de dominar por inteiro a matéria. Acho comovente quem queima pestanas estudando táticas e estratégias. Não que seja inútil, pelo contrário. Mas elas supõem um jogo em que não existam fatores aleatórios ou fora de controle. Ou seja, estudam um jogo virtual, que não existe na realidade. Daí a magia do futebol. Por mais que mentes brilhantes o estudem à exaustão, ele sempre reserva surpresas. Veja, por exemplo, o caso do São Paulo. No início do ano a maioria dos cronistas o considerava um dos favoritos a tudo o que disputasse. Tinha um elenco qualificado e variado (dentro das possibilidades do futebol brasileiro) e um técnico acima de discussões: Muricy Ramalho, dono de um dificílimo tricampeonato brasileiro, com o próprio São Paulo, além da Libertadores da América pelo Santos e outros grandes títulos. Pois bem, apesar de todos esses prognósticos favoráveis, o São Paulo patina.

Continua vivo na Libertadores e já está classificado para as quartas de final do Campeonato Paulista. Mas não é isso o que pega, e sim a maneira como vem jogando, sem passar qualquer confiança à torcida ou ao próprio treinador. Após a derrota de domingo para o Botafogo de Ribeirão Preto, Muricy se disse envergonhado. E cansado. Ressentindo-se ainda de problemas de saúde, sabe que o estresse da má campanha não o ajuda em nada na recuperação. Acabou entrando em acordo e rescindiu contrato. Acho que foi o mais certo.

No todo, o São Paulo parece um time cansado, desanimado, abúlico, sem apetite. “Falta pegada”, diria algum comentarista fanático por categorias como “raça” ou “atitude”. Nelson Rodrigues falaria de uma questão de alma. Acredito nisso. Um grupo tem de estar convencido de que vai realizar coisas grandes, senão atua de maneira burocrática, para constar. Faz o que dá para fazer, e nada além disso.

No futebol isso não se perdoa. Em especial quando, do lado oposto, existe uma equipe disposta a ir além do seu limite para vencer. O problema do São Paulo talvez seja a chamada “fadiga do material” – certo desgaste estrutural que pode comprometer o conjunto se não for diagnosticado a tempo.

Onde estava o problema? Nos jogadores, no técnico, na diretoria? Ou talvez em todos eles? Cabe ao São Paulo decifrar essa esfinge antes que ela o devore. A demissão de Muricy pode ser apenas um paliativo.

Na verdade, nenhum time está a salvo dessa síndrome. Tudo vai bem até que começa a ir mal. Os jogadores são os mesmos, o treinador idem, mas o que dava certo começa a dar errado. Usamos terminologia variada para nos referirmos a esse fenômeno, no fundo inexplicável. O jogo “não encaixa”, o time “virou o fio”, coisas assim. O fato é que raros times conseguem manter padrão ótimo de desempenho por grandes períodos de tempo. Há sempre alguma coisa que desanda, e pode comprometer o todo se não for detectada a tempo.

Grandes times, que se mantiveram no topo por muito tempo, foram se transformando ao longo do processo. Mantiveram a coluna dorsal e operaram modificações ali e aqui, nesta ou naquela posição, alterando o treinador ou a maneira de jogar para continuar vencendo. São medidas de transformação que devem ser pesadas e pensadas, e não feita aos trambolhões como costuma ser no futebol brasileiro.

Aqui, times harmoniosos, como o Cruzeiro do ano passado, dissolvem-se pela pressão do mercado. Outros, como o Santos, vivem de espasmos, ao sabor de revelações fantásticas que passam como meteoros pelo clube. Outros, sem saber o que fazer, trocam de técnico a toda hora para ver se acontece alguma coisa. Raros se preocupam com a renovação calibrada, para que a qualidade seja mantida. “É preciso que tudo mude para que tudo permaneça como está”, diz um personagem do romance O Leopardo, do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa. É claro que ele se refere à política e às tormentas das mudanças históricas muito bruscas. Mas não custa adaptar a sabedoria siciliana ao mundo do futebol.

* Coluna publicada na versão impressa do Estadão 

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