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Mundo de excesso

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h55

Outro dia, uma amiga me perguntou por que nada repercutia no mundo de hoje. Por exemplo, fala-se demais num assunto, como se não houvesse outro; amanhã, ele estará esquecido, como se nunca tivesse existido. Não deixa traços de sua passagem. Parece uma questão complicada, mas a resposta é clara, de uma obviedade ululante, diria eu. Em minha opinião, é porque tudo existe em excesso. Há muitos livros, muitos discos, muitos filmes, muitos fatos – tudo acima da capacidade humana de digestão.

A superexposição na mídia deixa tudo saturado, e com ar descartável. Num momento, não há outro assunto senão Obama recebendo a camisa do Flamengo. No dia seguinte, nem lembramos de que isso aconteceu. Nem sequer recordamos de que ele passou pelo Rio ou pelo Brasil. Efeitos da saturação. Tudo explode em fogos de artifício e vira fumaça em seguida. Tudo que é sólido desmancha no ar, como diria um velho ponta-esquerda alemão, um certo Karl. Karl Marx, para dar o nome completo.

Com o futebol acontece a mesmíssima coisa. O boleiro de sofá, se pagar um canal por assinatura, poderá ver quantas partidas de futebol quiser, de vários países, quase sem interrupção e nos horários mais estranhos, às vezes para desespero da patroa. Esse teleboleiro full time vive enfastiado de jogos. Como alguém que acabou de comer uma feijoada e é convidado para um churrasco. Ele pode até ir. Mas não tem apetite.

Daí essa sensação de tédio, em especial nesses jogos sem nexo do Campeonato Paulista. Aqui abro um parêntese para falar do nosso torneio estadual. Quem inventou essa fórmula de disputa deve ser aliado enrustido daqueles que entendem que os Estaduais já não têm razão de ser. Não pode haver coisa pior, nem mais mal ajambrada, do que a fórmula inventada pela Federação Paulista para este ano da graça de 2011. Se tivessem mantido a fórmula anterior (que era tudo menos genial), teríamos agora outro sabor na disputa. Afinal, os quatro grandes estariam classificados, como estão, mas poderiam sair da zona de classificação para as fases seguintes com muita facilidade. Bastaria perder um jogo ou dois para ter a sua situação comprometida. E, assim, as partidas teriam importância e motivação.

Na fórmula atual, com oito equipes indo para a fase seguinte, estão todos descansados. Relax total. Dificilmente ficarão de fora, mesmo apresentando o futebolzinho chinfrim que mostraram na rodada deste fim de semana.

Assim, desmotivados, e perdidos num mar de jogos programados pela TV, não estranha que o futebol apresentado pelos times esteja abaixo de qualquer crítica. Tirando os clássicos, quando pelo menos a rivalidade direta coloca alguma pimenta no prato, os jogos têm sido modorrentos a mais não poder. Quando, depois dessa chatíssima fase inicial, chegarmos ao confronto direto, talvez vejamos mais empenho dos jogadores e mais emoção para a torcida. Mas, então, por incrível que pareça, teremos um único confronto entre os times, com exceção da final, com ida e volta. É muita imaginação empenhada para destruir o que poderia ser um campeonato legal.

Claro, o Paulistão (eu ainda lhe dou a colher de chá de chamá-lo assim) teria de ser muito vibrante para concorrer com a overdose futebolística. Teria meios para fazê-lo. E isso por um bom motivo: por mais que se diga o contrário, aquilo que nos é próximo ainda nos fala mais ao coração. Podemos muito bem nos deslumbrar com o Barcelona, o Chelsea ou o Manchester United; podemos seguir com atenção os jogos incríveis da Champions League e podemos encontrar encanto mesmo no calcio. Mas o que nos comove para valer são nossos bons e velhos times locais. Nada substitui um Palmeiras e Corinthians, por exemplo.

Nossa paixão por esses times e a rivalidade entre eles são moldadas ainda na infância. São sentimentos precoces e que duram toda uma vida. Basta não querer esculhambar com os nossos campeonatos para que eles nos tragam emoções que não encontramos em nenhuma outra parte. Mas, do jeito que está…

Boleiros, 22/5/2011

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