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“Na Copa, show é ganhar, mano”

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h46

Tento entender a reversão de expectativas em relação à seleção brasileira.
Depois dos dois jogos iniciais, despencamos da mais ébria euforia a uma
espécie de depressão branda. Os motivos dessa montanha-russa de sentimentos?
Dois deles, interligados, saltam à vista, a meu ver: primeiro, o excesso de
expectativa, criado por fatos reais, e depois turbinados pela overdose
publicitária. Segundo: o desejo, ainda não realizado (e talvez irrealizável)
de ver o Brasil jogando no velho estilo que nos consagrou e ao qual nos
acostumamos no passado.
Todo mundo sabe que o Brasil chegou à Alemanha como favorito absoluto. Como
esse favoritismo se forjou? Pela campanha na Copa das Confederações e nas
Eliminatórias, mas sobretudo pelo fato de dispormos atualmente de um grande
número de craques, que parecem no auge da forma. O mais reluzente deles,
Ronaldinho Gaúcho, encantou o planeta bola no Barcelona, tornou-se o melhor
do mundo pela segunda vez consecutiva e conduziu seu time à vitória na Liga
dos Campeões. Nada disso é invenção.
Invenção é o que criaram em cima desses fatos: a imagem de um super jogador,
que já havia deixado Maradona no chinelo e poderia ser comparado, com
vantagens, a Pelé. Esse jogador capaz de controlar uma bola, chutá-la quatro
vezes contra o travessão e recebê-la de volta como quem toma um refresco.
Sobre-humano. Depois do jogo contra a Austrália, uma repórter de rádio me
perguntou por que o Ronaldinho não vinha rendendo o que dele se esperava.
Respondi que era porque os zagueiros do time adversário não tinham a menor
intenção de servir de coadjuvantes no show e que, pelo contrário, era função
deles atrapalhá-lo sempre que possível. Conclusão: uma partida de Copa do
Mundo não se parece em nada com um comercial da Nike. Nos comportamos com
relação ao Ronaldinho Gaúcho como alguém que vê filmes demais de
super-heróis e depois se atira pela janela porque pensa que pode voar.
O segundo motivo é mais complexo. Quando vemos jogadores como o próprio
Ronaldinho, mas também Robinho, Kaká, Juninho Pernambucano e outros,
pensamos que esta seria a seleção que poderia talvez reeditar o futebol-arte
do time de 1982. E, melhor ainda, desta vez vencer. Essa a utopia do
brasileiro, e na qual fomos formados: a de que a beleza, a malícia, a graça,
a arte enfim, devem sobrepujar a força bruta e se impor. Apesar das duas
copas vencidas no intervalo, a de 1994 e a de 2002, a seleção de 2006 seria
predestinada a resgatar o maravilhoso time de craques (Zico, Falcão,
Sócrates & Cia), a última seleção “à brasileira” para valer, e que ficou sem
títulos com a tragédia de Sarriá. 2006 seria o triunfo final do futebol-arte
sobre o futebol-força.
Não importa que digam que boa parte da torcida de hoje é jovem demais ou nem
tinha nascido naquela época. E daí? É nessa tradição que todo brasileiro
boleiro se forma, independentemente da idade. Não temos lá grande admiração
por esquemas táticos ou sistemas defensivos. Sabemos que são importantes, da
mesma forma que antibióticos ou chips de computador são importantes, mas não
nos comovem. Conservamos uma memória coletiva, e talvez inconsciente, desse
“estilo brasileiro” que pode nem mais existir, mas que teima em renascer de
vez em quando nas jogadas de um Ronaldinho ou de um Robinho. Queremos
invenção, imploramos pela exceção que subverta a regra. Queremos surpresa,
beleza e poesia, pois é isso que buscamos no futebol.
O racionalismo europeizante de Parreira pode acabar dando certo, como deu em
1994. Como ele disse ontem, bravinho: “Na Copa do Mundo, show é ganhar,
mano”. E quem vai dizer que não? Mas, no fundo, no fundo, não é bem esse o
alimento que sacia a nossa fome. Desejamos mais uma Copa do Mundo, mas com o
nosso sabor – se é que esse tempero ainda entra no fast food do futebol
global.

20/6/2006

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