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Na tela, o Brasil bom de bola

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h55

Que o Brasil bate um bolão em campo todo mundo sabe. Afinal, estão aí os dez
brazucas finalistas à Bola de Ouro para não deixar ninguém duvidar. Mas que
as virtudes do futebol brasileiro tenham sido bem utilizadas pelo cinema,
bem, isso aí já é matéria para debate. Felizmente os diretores têm se
interessado mais pelo futebol, como provam dois novos filmes lançados na
Mostra BR de Cinema: O Dia em que o Brasil Esteve Aqui e Ginga. Dois belos
documentários sobre o esporte preferido por dez entre dez patrícios.
O Dia em que o Brasil Esteve Aqui, de Caíto Ortiz e João Dornelas, fala de
uma data muito especial na história da seleção brasileira: 18 de agosto de
2004, quando o time de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos & Cia
viajou para o Haiti para o chamado “jogo da paz”. Missão humanitária, num
país louco pelo futebol e devastado pela pobreza e guerras civis. O que um
jogo pode resolver? Na prática, pouca coisa. Mas, no plano simbólico,
significava trazer um pouco de alegria para aquelas pessoas, o que talvez
não tenha muito sentido num mundo cínico, mas também não precisamos pautar
as nossas vidas pela opinião dos cínicos, não é mesmo?
E, para quem ainda se deixa levar pela emoção, parecem empolgantes as cenas
registradas com a chegada da seleção a Porto Príncipe. Zagallo e Parreira
falaram isso, mas no fundo nem precisavam, porque as imagens dizem com mais
força: parecia que a seleção estava chegando ao Brasil depois de conquistar
o hexacampeonato, tamanha era a festa. Os jogadores desfilavam em carros
blindados das Nações Unidas e tinham seus nomes gritados pela multidão. Um
deles, em especial, Ronaldo, o mais conhecido, talvez o mais carismático do
grupo. Ao ver esse filme, é inevitável pensar no poder de mobilização desse
esporte.
As cenas da seleção nos braços do povo haitiano poderiam se passar em
qualquer periferia pobre de São Paulo ou do Rio. Infelizmente, às vezes a
seleção brasileira parece mais próxima do Haiti do que do seu próprio país.
Ginga, de Marcelo Machado, Tocha Alves e Hank Levine, nos ajuda a
compreender possíveis motivos da identificação dos haitianos com os boleiros
patrícios: é que o futebol brasileiro tem profunda base popular. Dessa
origem, tira sua arte e sua força. O filme trabalha com imagens de alguns
profissionais consagrados como Robinho e Falcão, do futsal. Claro que é
fascinante ver os dois brincarem juntos numa quadra de futebol de salão –
campo que Falcão tentou deixar para fazer carreira no São Paulo e onde
Robinho cozinhou as jogadas mágicas que depois seriam aplicadas nos
gramados.
Mas o filme não fica nas celebridades. Pelo contrário, abre mais espaço para
os boleiros anônimos, gente habilidosa que ainda espera por uma chance nos
campinhos batidos do Brasil. Um deles, o primeiro personagem apresentado, se
chama Wallace da Silva. Se você perguntar por esse nome na Rocinha ninguém
vai saber quem é. Agora, se procurar por Romarinho, vai encontrar o rapaz
franzino e de olhar vivo, driblador nato, que havia participado de 22
peneiras no Flamengo e sido reprovado em todas. Mas, para sua sorte (e
nossa), justo no dia em que as câmeras o acompanhavam, foi finalmente
aprovado e passou a treinar na Gávea.
Paulo César é um ex-favelado de São Paulo que fez teste na Portuguesa e foi
recusado. Sérgio é um branquinho de classe média, que arrebenta nas quadras
de society. Celso é amazonense e joga no Peladão, o maior torneio de várzea
do mundo. E o mais comovente é Wecsley, garoto bom de bola de Niterói que
perdeu a perna num acidente. Hoje ele é um dos destaques do time de
paratletas de sua cidade. Faz, com uma perna só, o que muita gente por aí
não faz com duas. Ginga é um jeito nosso de ser e jogar. Define um estilo de
país, para quem não se envergonha dele.

26/10/2005

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