As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nasce um craque?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h23

9/1/2007

Antes de escrever este texto, brinquei com colegas da redação dizendo que ia
dar uma de irresponsável e abrir com o título “Nasce um craque”. Referia-me,
claro, ao jovem Alexandre Pato, de 17 anos, que entrou no segundo tempo e
fez dois gols contra o Chile pela seleção sub-20. Brincadeira, como disse
depois aos amigos, pois não esqueço um minuto sequer que um jogador, para
merecer título de craque, deve comer muita poeira pelos campos da vida.
Deve mostrar que não é apenas um lampejo brilhante que depois irá se apagar.
Que exiba condições de crescer e seja testado em momentos de dificuldade,
aqueles que separam os meninos dos homens. Que mostre sua técnica sob sol e
sob chuva. Enfim, que tenha o seu batismo confirmado por um número
significativo de vitórias… e também de derrotas, pois são elas que ajudam
a formar o caráter.
Agora, que dá gosto ver o menino jogar, lá isso dá. Não que ele tenha feito
um partidaço contra o Chile. Foi, sim, muito decisivo nos momentos em que se
apresentou. Há atacantes assim, que tornam seu time agudo, vertical,
perigoso – e Pato parece ser dessa raça. E é preciso muito desplante para
tentar um gol de letra no jogo de estréia da seleção no torneio. Certo: ele
havia passado da linha da bola e aquela era a única possibilidade. Mas muita
gente se acanha diante dessa alternativa menos ortodoxa, por medo do erro,
que ele não parece temer. O segundo gol, de cabeça, foi de quem sabe das
coisas, aparando o cruzamento certeiro de Carlinhos pela esquerda e
deslocando o goleiro. Enfim, vamos vê-lo evoluir. (Mas, por quanto tempo,
antes que se vá embora, em especial se continuar jogando desse jeito?)
Assim, mantenho para o título a minha brincadeira com os colegas. Mas, como
cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, acrescento um ponto de
interrogação no final.
MORRE UM CRAQUE
Este era craque da escrita, ramo nosso. Paulo Perdigão, que se foi há alguns
dias, se entrasse em campo seria um polivalente, como Lima, do antigo
Santos. Era crítico de cinema, filósofo, ensaísta, tradutor e programador de
filmes da Rede Globo. E o que faz seu nome numa coluna de esportes? É que,
entre várias virtudes, Perdigão curtia também a paixão pelo futebol.
Escreveu um clássico do gênero, Anatomia de uma Derrota, que disseca o
fatídico 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950.
Perdigão era garoto na época e foi levado ao Maracanã pelos pais. Nunca pôde
esquecer o gol de Gigghia, o silêncio das 200 mil pessoas, os jogadores
chorando, consolados pelos próprios uruguaios. Adulto, tentou desvendar o
mistério daquela fatalidade. Se dá ao trabalho de reproduzir a transmissão
radiofônica do jogo, minuto a minuto, na tentativa de captar aquele
insondável encadeamento de eventos que leva uma equipe, considerada
vencedora de antemão, à mais dolorosa de todas as derrotas.
São tantas as variáveis de um partida de futebol que é impossível flagrar
aqueles momentos em que o acaso e a necessidade tecem um destino, um
resultado final, um campeão e um derrotado. Por isso, se viu obrigado a
encerrar o livro com um conto. Cria um personagem fictício (ele mesmo,
provavelmente), que por obra de uma máquina do tempo volta àquele fatídico
16 de julho de 1950 para avisar ao goleiro Barbosa que Gigghia irá chutar no
seu canto baixo esquerdo. Mas não se muda o destino.
O conto foi filmado por Jorge Furtado e Anna Azevedo e se transformou no
curta-metragem Barbosa, nome do grande injustiçado da maior tragédia do
futebol brasileiro, aquela que Nelson Rodrigues chamava de “a nossa
Hiroshima”.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: