Neymar, entre a bola e o capital
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Neymar, entre a bola e o capital

Será que o encanto da bola, o fascínio puro do jogo sobrevivem aos grandes interesses econômicos e políticos, como os envolvidos na transferência de Neymar do Barcelona para o PSG?

Luiz Zanin Oricchio

29 de julho de 2017 | 15h31

As megacifras e altos interesses políticos que envolvem a possível venda de Neymar ao PSG indicam talvez um novo patamar do capitalismo global e sua associação com o mundo da bola.

Não se trata apenas de uma (ainda incerta, porém provável) transferência bilionária do craque do Barcelona para o PSG, mas de todo um leque de interesses em jogo.

O tema chamou a atenção de um cientista político, Mathias Alencastro (filho do grande historiador Luis Felipe Alencastro). Texto publicado na Folha (“Investida do PSG sobre Neymar é jogada diplomática do Catar”, 24/7/2017), citado depois pelo colunista esportivo do Globo, Carlos Eduardo Mansur (“Craques Inc.”, Globo, 29/7/2017).

O Catar é o maior exportador de gás natural do mundo e vem sendo hostilizado por países da região como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Egito. Através de um fundo de investimento, o Catar controla o Paris St. Germain. A operação Neymar seria a ponta do iceberg de um novo e ousado movimento geopolítico do Catar – sede da Copa do Mundo de 2022.

A transferência de Neymar envolve não apenas o desejo de reforçar o time de modo a habilitá-lo a conquistar a Liga dos Campeões. Implica uma delicada engenharia fiscal e tributária para viabilizá-la e traz repercussões na geopolítica do Oriente Médio. A própria aquisição do PSG seria mais um cartão de visitas do país para o Ocidente. Assim como é a sua companhia aérea, famosa pelo trato luxuoso dispensado a usuários. Com Neymar, e um possível título europeu, o Catar se reafirmaria como país independente, que não se dobra a pressões e tem articulações sólidas com a Europa e o resto do mundo.

Alencastro destaca o caráter amplo dessa transação do mundo da bola. Cronista esportivo, Mansur se preocupa com suas repercussões. Tantos interesses – econômicos e políticos – podem comprometer a “aura” (o termo é meu, não dele) do futebol? É uma questão a ser levada em conta, a meu ver. Já há, em Barcelona, dúvidas sobre a sinceridade do coração que pulsa sob camisa tão valiosa. Assim como houve em Santos, quando Neymar se transferiu para o Barcelona.

Qualquer um que ame o futebol sabe que ele é paixão de infância. Portanto, situa-se mais no domínio da emoção que no da razão. Todos nós jogamos a nossa bolinha quando moleques. Escolhemos o nosso time do coração, seja por influência paterna ou de alguma outra figura de identificação infantil. Ou pela força do time dominante da época. Ou por algum ídolo que tenha grande destaque. Fomos joguetes de nossa emoção e fantasia.

Acompanhamos o time escolhido, alegramo-nos com as vitórias, choramos as derrotas. Aprendemos que vencer é bom, mas não se pode ganhar sempre. Tivemos de aprender a perder. É uma dura lição de amadurecimento emocional que o futebol nos dá e nos prepara para a vida adulta.

Experimentamos a agonia e o êxtase dos grandes jogos e aprendemos a apreciar a beleza do espetáculo, para além dos times. Todos temos na memória algum momento sublime e paradoxal, quando fomos obrigados a aplaudir uma jogada genial ou gol de placa contra o nosso próprio time. Apenas porque aprendemos que a grandeza do futebol está acima de tudo. Até mesmo do nosso amor clubístico.

Quem adquiriu essa experiência do futebol – e a manteve ao longo da vida – tem sempre muita dificuldade em ver esse jogo magnífico reduzido a cifras e questões da política internacional. Parece vil. Parece pequeno, apesar das cifras e interesses envolvidos. Nossa emoção vale mais que tudo isso, pensamos. E essa é a sobrevivência da criança em nós, por calejados que sejamos.

Prefiro lembrar de Neymar no começo. Encantando os torcedores na Vila Belmiro quando entrava esporadicamente no time principal. O então treinador do Santos, Vanderlei Luxemburgo, o chamava de “filé de borboleta”. Não o escalava para jogar todo o tempo porque o garoto ainda não tinha estrutura física para enfrentar os zagueiros. Quando entrava, às vezes fazia jogadas de fantasia, que lembravam os grandes craques do passado no terreno abençoado do Urbano Caldeira.

Não faz tanto tempo assim. Mas já parece pertencer a outra era geológica.