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Ninguém é de ninguém *

Luiz Zanin Oricchio

25 de setembro de 2012 | 07h23

Os mais experientes lembrarão daquela velha música na voz de veludo de Agostinho dos Santos: “Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa/ninguém é de ninguém/até quem nos abraça”. Alguém dirá que é canção de dor de cotovelo. Outros, que expressa a mais dura e rasteira verdade. Hoje estamos com alguém a quem juramos amor eterno. Amanhã, ninguém sabe. Há os casos felizes, e os realmente eternos enquanto duram, como dizia outro poeta, Vinicius de Morais. Mas eles são raros. Cada vez mais raros.

E o que dizer do futebol? Existe coisa mais efêmera que a ligação de um boleiro com seu time? Hoje, juras de amor eterno e beijos no escudo. Amanhã, o sonho europeu ou, na falta deste, a aventura no mundo árabe ou em alguma das ex-repúblicas soviéticas, ou…Ou qualquer parte. O mundo, vasto mundo, é cada vez mais vasto e sem fronteiras para os profissionais da bola.

Então, por que PH Ganso deveria permanecer no Santos, se esse não era mais o seu desejo? Por que não poderia ir para o São Paulo, se assim entendiam, ele e seus investidores, ser o melhor para sua carreira? E assim foi feito: a revelação santista, de contrato novo no Morumbi e declarando-se agora um “homem realizado”.

Simplesmente mudou de emprego. Como mudou Oscar, ao sair do São Paulo para o Internacional e, deste, para o Chelsea. Como mudou Lucas, que fica até o fim do ano, mas, a partir de 2013 já passa a tratar a bola em francês, no Paris St. Germain. C’est la vie. Em qualquer setor de atividade, o homem deve buscar seu interesse, seja ele financeiro, seja o da realização profissional. Tudo é muito natural e justo, trate-se de um gerente marketing de multinacional ou de jogador. Somos todos iguais. Mas, assim como sobra certo ressentimento quando um profissional de qualquer área muda de firma pela do concorrente, também no futebol acontece quando um jogador troca seu clube pelo rival.

“Também”, disse eu? Muito mais no futebol, atividade na qual a emoção está à flor da pele. Esse é o ponto. O jogador é um profissional da bola. Mas a sua profissão tem características próprias. Da mesma forma que um repórter é obrigado a dar plantões ou um médico não pode deixar de atender um doente grave a pretexto de que já fechou a lojinha, um jogador tem de enfrentar a emoção do torcedor. Afinal, ele é o que é e ganha o que ganha apenas porque no mundo do racionalismo econômico do futebol existe um bando de irracionais que paga as contas. A torcida.

Na real. Quem alimentava ilusão a respeito do Santos tomou um banho de realidade no sábado. A defesa não marca, o meio campo não cria e o ataque não faz gols. Sem Neymar, tem aproveitamento de time rebaixado. Com Neymar, de time campeão. Como a CBF só empresta Neymar ao clube de vez em quando, o Santos está na região intermediária. No limbo.

 

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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