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Nos tempos da pátria de chuteiras

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h34

26/6/227

Amanhã o Brasil começa sua participação na Copa América, a mais antiga
competição de seleções do mundo, com primeira edição realizada em 1916. E
daí? Daí que a expectativa parece tão pífia como se o Brasil estivesse
prestes a disputar um amistoso contra o badalado escrete das Ilhas Fiji.
E, no entanto…nem sempre foi assim. O Campeonato Sul-Americano, atual Copa
América, já foi muito importante. No de 1919, realizado no Rio e vencido
pelo Brasil, os jogadores foram homenageados como heróis da pátria, em
particular um deles, o mulato Arthur Friedenreich, exceção racial em esporte
ainda praticado por brancos da elite. Friedenreich marcou o gol do título,
contra o Uruguai. Dizem os cronistas que a vitória brasileira paralisou a
antiga capital federal, toda ela tomada de fervor cívico.
Muitos anos depois, Nelson Rodrigues inventou a expressão que dá título a
esta coluna. Para Nelson, a seleção era a “pátria de chuteiras”, o que lhe
valeu muita crítica. Em especial durante o governo militar, quando símbolos
como hino, bandeira, as cores verde e amarela eram associados à ditadura.
Hoje, a “pátria de chuteiras” é menosprezada por outros motivos. Dizem que
no mundo globalizado a própria idéia de nação tende a se enfraquecer. O
futebol seria o exemplo mais gritante da globalização. Os jogadores saem
cedo e espalham-se pelo mundo. Mantêm pouco contato com seus países de
origem e alguns já falam a língua materna com sotaque. Logo precisaremos de
intérpretes nas entrevistas coletivas para auxílio de jornalistas
monoglotas.
Pois bem, o que seriam essas seleções multinacionais como as de hoje?
Qualquer coisa, menos uma “pátria de chuteiras”. A idéia por detrás dessa
expressão antiquada é que determinadas pessoas, os jogadores que formam o
time, funcionavam como representantes desse país. Jogavam por nós. Saíam do
seio do povo e iam para terras distantes combater em nome desse povo.
Voltavam, quando vitoriosos, cobertos de glórias. O futebol entre nações é
uma guerra simbólica. Ou era?
Toda essa construção épica ruiu, ou pelo menos apresenta rachaduras de alto
a baixo, embora a cada vez que penso nos Estados Unidos começo a duvidar de
que o nacionalismo esteja de fato em baixa. Em todo caso, em ambientes “in”
não se fala mais em pátria e, neles, nacionalismo é papo de gente como Hugo
Chávez ou Evo Morales.
Então vamos combinar assim: a seleção já não é a pátria de chuteiras, se é
que algum dia o foi. Mas, não sendo mais a pátria de chuteiras, o que será
uma seleção, e para o que ela serve, se é que serve para alguma coisa?
Respostas à coluna.
SOBROU O TORCEDOR
Outro dia peguei um vôo da Ponte Aérea, indo de São Paulo para o Rio. Sentei
no corredor. Portas do avião quase fechando, entra um homem esbaforido.
Executivo, maleta de couro bom, terno, gravata, meia-idade, calvo. Dá uma
olhada furtiva na aeromoça, tira o celular do bolso e faz uma última
chamada. Pensei: vai checar se está tudo ok com o negócio que acaba de
fechar. Mas não. Cheio de angústia, pergunta, baixinho: como é que está o
jogo, hein? Devo esclarecer. Naquele exato momento jogavam no Maracanã
Botafogo e Vasco. Recebida a informação, o meu vizinho faz cara de alívio.
Desliga o telefone e encosta a cabeça na poltrona. Dormiu antes de o avião
decolar. Enquanto houver o torcedor, haverá vida no futebol.
Nelson Rodrigues criou a expressão que hoje talvez não tenha mais sentido

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