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O acaso e a necessidade

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h37

Andei lendo um livro sobre o técnico José Mourinho, do Real Madrid. Ele, e todos os treinadores do mundo, alimentam uma obsessão: minimizar o fator acaso no futebol. Para tanto, lançam mão de vários expedientes, que vão das neurociências aos despachos na encruzilhada. Em vão. Nelson Rodrigues – sempre ele – chamava de Sobrenatural de Almeida à interferência daquilo que não se pode prever no andamento de uma partida, numa decisão de campeonato ou mesmo de Copa do Mundo.
O futebol nos faz, ou nos deveria fazer mais humildes. Ele nos mostra que existe sempre alguma coisa que nos escapa, que vai além de nossas mais científicas previsões, dos nossos planos mais elaborados. A vaidade do ser humano é tudo dominar. O futebol mostra o homem como ele é – nu e desamparado diante das intempéries da vida. Na verdade, a utopia de Mourinho jamais será realizada. Nunca ninguém terá controle absoluto sobre todas as variáveis que acontecem numa simples partida de futebol. Um reles morrinho artilheiro derruba a mais intrincada das teorias táticas.
Esse papo todo vem em função deste belo jogo que foi Internacional 3 x Corinthians 2, em Porto Alegre. Talvez não tenha sido a melhor partida do campeonato, se formos atentar apenas para o aspecto técnico. Em especial no primeiro tempo, as duas equipes ficaram a dever, mas ainda assim foi um bom jogo. Afinal, tínhamos direito de esperar o máximo, pois estavam em campo dois dos melhores times do campeonato, duas equipes que, podemos apostar com boa dose de segurança, estarão ambas disputando o título brasileiro de 2010 até as rodadas finais.
Já o segundo tempo… sai de baixo, foi emoção pura.A começar pelo gol que seria do empate do Timão, evitado pela bela “defesa” de Nei, zagueiro colorado que deveria tentar a sorte debaixo das traves. O moço leva jeito para a coisa. Foi, claro, expulso e o pênalti convertido aos 44′ dava o empate ao Corinthians o que, dadas as circunstâncias, não era nada mal. Mas quem poderia prever o que aconteceria naquela cobrança de falta por Andrezinho, no provável último lance do jogo? Não adianta agora crucificar Moacir pela bola desviada de cabeça que acabou por entrar no gol de Julio Cesar. Ele tentou fazer o melhor. Desviar a trajetória da bola que, achava, iria acabar dentro do gol. Ao tentar salvar seu time, o afundou de vez, sem tempo para reação. Coisas da vida minha nega, diria o grande cruzmaltino Paulinho da Viola.
É necessário dizer que a derrota, nessas circunstâncias, não deveria abater o Corinthians. Pelo contrário. Pode servir de estímulo. Domingo, no Sul, o Corinthians não merecia a derrota. Por outro lado, na quarta-passada, contra o Santos, na Vila, não merecia a vitória. Tudo somado, o Timão está quite com o destino. E é assim mesmo no sistema de pontos corridos – os desvios do acaso vão sendo somados e debitados de uma partida a outra até que, no fim da longa caminhada, o campeão será aquele que de fato teve a melhor campanha. Daí a justiça final do sistema, que pode ser construída a partir de injustiças parciais. Um time perde jogos que merecia ganhar e ganha outros que merecia perder. E dessa forma os méritos e deméritos se equivalem e se anulam entre si.
O que importa, no fundo, é a maneira como o Corinthians jogou. Pode ter havido erros em detalhes ali e aqui, mas mostrou que é um time sólido, pronto a jogar bem mesmo na casa do adversário. Talvez não tenha a mesma solidez defensiva do tempo de Mano, mas ganhou nova fluência na fase Adilson. Tornou-se mais agradável de ver, mais dinâmico e agudo no meio de campo e ataque. Enfim, está jogando bem e é isso que deve interessar à sua torcida.
Outro que voltou a jogar bola e deu mostras de ressurreição foi o Santos na bela goleada de sábado contra o Cruzeiro. Não, não é o mesmo time do primeiro semestre, aquele que marcava sob pressão e criava dezenas de chances de gol a cada partida. Aquela foi uma primavera que passou. Mas, de qualquer forma, os lances incisivos reapareceram. Em especial nos pés de Neymar, redivivo após a crise artificial. O garoto amadureceu. Agora apanha e cala. Era o que queriam, não é?

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