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O adeus de Ronaldo

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h38

Dizem que o jogador é o único ser humano que morre duas vezes. Antes da morte física, morre quando deixa de jogar. É talvez por isso que tentem adiar o máximo possível essa sentença definitiva que, no caso dos comuns mortais, não passaria de uma prosaica aposentadoria.
Muita gente dirá – sem estar errada – que, no caso de Ronaldo, deve ter contado e muito a soma de contratos publicitários ou ações de marketing que deve ter alinhavado com o Corinthians. É verdade. Talvez o cálculo financeiro tenha prolongado mais do que devia uma carreira que, segundo as leis do bom senso (mas quem as obedece?), deveria ter sido encerrada muito antes?
Escrevo isso e já me desminto porque, contra toda a expectativa, Ronaldo, quando voltou para o Brasil, teve um ótimo primeiro ano com a camisa do Corinthians. Vocês se lembram. Foi uma volta badalada, cercada de grande expectativa por muita gente e ceticismo por outros tantos. Quando Ronaldo marcou o primeiro gol com a camisa do Timão, foi um acontecimento. Quando teve uma atuação de sonho na Vila Belmiro, e marcou dois gols de antologia, houve quem dissesse que ressurgia o craque extraordinário, pentacampeão do mundo, três vezes o melhor do mundo segundo a FIFA. Deu dois títulos ao Corinthians – o do Campeonato Paulista e o da Copa do Brasil, ambos em 2009
Talvez fosse aí o momento de parar. Mas havia os compromissos financeiros. E havia a ambição de conquistar títulos ainda inéditos, em especial a Copa Libertadores da América. O que se seguiu, todos sabem. A perda do título brasileiro em 2010 e a eliminação da pré-Libertadores em 2011. Inferno astral, que não era só dele, mas do próprio Corinthians. Houve a reação violenta da torcida. Roberto Carlos saiu, e tudo isso pode ter sido a gota d’água para uma decisão que já vinha sendo ruminada.
A natureza “cordial” do brasileiro fará com que seja esquecida a faceta polêmica do Fenômeno. Quem tem um pouco de memória sabe que os mesmos que hoje o colocam no patamar da genialidade o responsabilizaram pela derrota do Brasil na Copa de 1998. Verdade que se resgatou no Mundial seguinte, tornando-se, junto com Rivaldo, o principal responsável pelo penta. Mas, mesmo assim, não era a unanimidade que hoje se imagina.
A verdade é que a quase totalidade da carreira de Ronaldo foi feita fora de nossas vistas. Não é culpa dele. É das circunstâncias da nova carreira do jogador de futebol, da qual ele foi um exemplo acabado. Jogador globalizado, deixou o País ainda garoto para brilhar na Europa. E venceu em vários dos grandes clubes do mundo. Mas isso não basta. Apesar de tudo o que se diz sobre a internet, a TV a cabo, esse pequeno mundo global, etc, continua a existir um bom e extenso oceano entre a América do Sul e a Europa. Há distâncias ainda maiores e estas se medem pela régua da dimensão simbólica.
Ronaldo só voltou a ser “nosso”, de fato, quando vestiu, com a maior naturalidade, a camisa do Corinthians. E digo “nosso” porque ele não pertenceu apenas à Fiel, mas a todas as torcidas rivais do Coringão. Convenhamos, a volta do Fenômeno mexeu com todo mundo naquele ano de 2009. Houve muito tititi, os paparazzi trabalharam como nunca. E, sobretudo, houve os gols e jogadas de técnica refinada – que são o que contam.
Depois desse ano mágico, seria a hora de parar. Mas havia o dinheiro, os compromissos, a vontade de ganhar mais títulos e, acima de tudo, talvez, o desejo de adiar aquela primeira “morte” de todo jogador. Até onde podemos ir em nossas vidas? Nunca sabemos. Um artista da bola, pelas circunstâncias, talvez saiba ainda menos. Mesmo com a vida material garantida para si e toda a descendência por algumas gerações, sempre falta alguma coisa. O que pode substituir a emoção da entrada em campo, saudado pela torcida? Ou o prazer de uma boa jogada ou, acima de tudo, o gol, que muita gente já comparou, com propriedade, à sensação do orgasmo? Perto disso, as chateações do ofício como as longas concentrações, os regimes alimentares, a ingratidão dos torcedores, talvez seja fichinha.

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