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O amor desinteressado pela bola

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h18

É bom ouvir o que o fotógrafo Ed Viggiani tem a dizer, pois ele é um boleiro
amador com visão humanista sobre o futebol. Cita o historiador Joel Rufino
dos Santos para dizer que o futebol é o índice dos nossos defeitos e
qualidades. E fala por si mesmo ao afirmar que “somos os melhores do mundo,
pelo menos quanto às conqusitas mundiais. Temos um povo talentoso. E um
pensamento de país colonizado. Achamos correto e natural exportamos os
melhores jogadores ao invés de exportarmos o espetáculo”. Mas melhor ainda é
ver o seu trabalho como fotógrafo. Porque essa concepção “política” do jogo
se expressa à perfeição em seu álbum Brasileiros Futebol Clube, coletânea de
fotos em preto-e-branco que será lançada amanhã, a partir das 18h30, na
Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915, tel. 3814-5811). O livro conta
ainda com um inspirado (como de hábito) prefácio de Luis Fernando Verissimo
e um depoimento do próprio autor, à guisa de posfácio.
Não há, entre as imagens, qualquer registro de jogador célebre. Nem um
Ronaldinho Gaúcho, nem Fenômeno, nem Robinho e nem Nilmar. Nada. Só boleiros
anônimos. Jogando onde? Onde for possível. Nas praias, nas ruelas de
conjuntos habitacionais, nos campinhos das favelas, nos terrões da vida, em
cima da laje, que é o espaço social do pobre. As traves (que Verissimo,
gauchescamente, chama de “goleiras”) podem ser dois tijolos, umas
travezinhas pequenas, daquelas feitas de canos d’água, que se usam na praia.
Ou mesmo uma trave completa, em uma das fotos mais marcantes. Sim, nessa
imagem de uma pelada na zona sul de São Paulo temos as duas traves e o
travessão. Verdade que todos os paus remendados e emendados de qualquer
jeito, pensos para um lado; precária meta que não tem cara de resistir à
primeira bolada. Mas que dá sentido ao jogo que acontece naquele campinho
esburacado.
Há também as fotos da torcida. Não aquela que vai às sociais ou aos
camarotes. É o pessoal da arquibancada mesmo, da antiga geral. A turma que
come o churrasquinho de gato na entrada do campo, que depois se espreme nas
marquises e eventualmente briga quando o time perde. O registro das torcidas
foi um dos motivos que levaram Viggiani à escolha do preto-e-branco: “A cor
entregaria a torcida ou o clube. Em P&B gera-se a dúvida. Cria uma certa
identidade entre as torcidas porque todo torcedor acha que só a sua torcida
é bonita”, diz. Outro motivo é a durabilidade. A cor desbota. Foto em
preto-e-branco é para toda a vida.
Como parece ser para toda a vida a paixão do brasileiro pelo jogo da bola.
As fotos, tomadas uma a uma, são lindas. Juntas, expressam o conceito que
passa pelas imagens deste Brasileiros Futebol Clube. O jogo, como se sabe,
chegou aqui no século 19 e pelas mãos da elite. Foi um filho de inglês,
Charles Miller, quem trouxe a primeira bola, chuteiras e o livro das 17
regras. No início, eram só os brancos e ricos que praticavam esse esporte
que negros e pobres assistiam à distância. Depois, eles foram aos poucos se
apoderando do jogo. Dessa apropriação, saíram Leônidas, Domingos da Guia,
Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, Ronaldo. Os grandes
artistas.
O futebol do Brasil é resultado de uma vitória popular. Ou foi. Mesmo na era
do marketing e do esporte-negócio permanece entranhado na vida do povo. Está
no DNA do brasileiro, “do jeito que o brasileiro é, criativo,
miscigenado,rico, tosco, irracional e lúdico”, como diz Viggiani. O livro é
sobre esse amor desinteressado da gente pobre pelo futebol. Por isso é
lindo. E às vezes triste.

14/5/2006

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