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O amor e a fúria da torcida

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h39

Torcedores do River Plate transformaram Buenos Aires em inferno depois que seu time caiu para a 2ª divisão. Vocês devem ter visto esta notícia. O River precisava ganhar do Belgrano por pelo menos 2 a 0 para evitar a queda, a primeira em sua veneranda história de 110 anos. Empatou em 1 a 1. Metade da Argentina ficou de luto. A outra metade, ou quase, a do Boca Júniors, deve ter ficado em festa. É assim. O luto não espanta ninguém. A explosão de fúria, sim.
Foi lá, poderia ter sido aqui. Poderia se dar em qualquer lugar do mundo no qual o futebol é mais que um jogo ou um entretenimento. A conquista do Barcelona na Champions League causou transtornos na capital da Catalunha. Por aqui, já vimos, por exemplo, como a torcida do Corinthians reagiu muito mal à desclassificação da Libertadores diante do mesmo River Plate, se não me equivoco, na era da MSI. A torcida do Santos ficou em fúria quando perdeu do Corinthians num daqueles jogos repetidos do malfadado Campeonato Brasileiro de 2005. A do Coritiba saiu quebrando tudo quando o time caiu para a Segundona. Os exemplos se multiplicam. São atitudes deploráveis, claro, que, infelizmente, fazem parte do mundo do futebol.
Atitudes como essas não são, como dizem alguns colegas apressados, frutos dos tempos modernos. Esses nossos tempos de desencanto, sem grandes causas coletivas, nos quais as multidões encontrariam no futebol uma válvula de escape para seus instintos tribais. A tese é atraente. Infelizmente, encontramos registros de distúrbios e pancadarias no mais longínquo passado futebolístico. O escritor Lima Barreto, por exemplo, deplorava o futebol por causa da extrema rivalidade que esse esporte despertava. Via nele não um fator de identificação nacional, como alguns já anteviam, mas traço de desunião entre estados rivais, como São Paulo e Rio de Janeiro. Lima tinha esperança de que o futebol, ainda uma novidade em seu tempo, não passasse de moda passageira. Pobre Lima.
Uma vez, fazendo uma pesquisa para um livro sobre futebol e cinema, descobri a notícia de um filme que registrava uma tremenda pancadaria no Parque Antártica por ocasião de um jogo entre o Paulistano e o Palestra Itália. De acordo com o registro “os torcedores do Paulistano e do Palestra foram presos por delírios nervosos, onde é cinematografada uma rixa entre senhoritas”. Até mesmo as senhoritas! O ano da filmagem é 1921.
Não precisa ser assim. Todos nós já vimos, também, reações magníficas por parte de torcidas entristecidas. A própria torcida do Corinthians, louca de dor, começou a apoiar o time no mesmo momento em que ele caía para a segunda divisão. O mesmo me lembro para a torcida do Atlético Mineiro que, ao final da partida em que o time caiu, cercou o ônibus, não para hostilizar os jogadores, mas para cantar o hino do clube e dizer a eles que estavam solidários na mesma dor. Haviam caído juntos e juntos haveriam de subir, como de fato aconteceu.
A paixão clubística pode se manifestar de diferentes formas.
Em seus extremos, pode vir sob a forma do amor incondicional ou como ódio irracional. Haverá meios de controlar esse radicalismo da paixão sem por isso extingui-la e, com isso, extinguir a força propulsora que faz o futebol ser o que é? Essa é a questão.
Qual Santos?
Durante a semana muita gente se divertiu em imaginar o que poderia dar Santos x Barcelona numa partida final de Mundial Interclubes. Pergunto: mas qual Santos? Qualquer um de nós pode dar a escalação do Barcelona para esse jogo de dezembro com margem mínima de erro. Mas como saber qual time o Santos mandaria a campo no Japão. Terá ainda Ganso e Neymar ou já terão saído para a Europa? O mesmo pode se perguntar de Elano, Arouca, Danilo, Rafael, etc. Essa incerteza quanto à manutenção de times é a entropia maior do futebol brasileiro.

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