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O andar do bêbado

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h40

Estou lendo um livro interessante, com este título que chama a atenção: O Andar do Bêbado. Fala de como a nossa vida, em boa parte, é regida pela casualidade. Nós, que nos preparamos (ou fomos preparados) para aceitar causalidades simples – fazemos tal coisa e obtemos determinado resultado – muitas vezes somos surpreendidos quando o mundo não se comporta como esperamos e desejamos. Isso acontece na metereologia, na política, na flutuação das ações na Bolsa de Valores. E, claro, no esporte e, entre eles, o futebol.
Sobre o jogo da bola, o autor do livro Leonard Mlodinow diz uma coisa interessante: “criamos uma cultura na qual, com base em sensações intuitivas de correlação, o êxito ou fracasso de um time é atribuído em grande medida à competência de um técnico.” Por isso, ele prossegue, quando um time fracassa, o técnico é demitido. Acontece que, em análises matemáticas, a demissão de um técnico, a sua troca por outro, não comprova qualquer efeito no desempenho do time. Ele cita estudos baseados no beisebol, basquete, futebol americano e o soccer, o futebol nosso de cada dia. Sobre este, cita um certo Ruad H. Koning, autor de um estudo de título An Econometric Evaluation of the Effect of Firing a Coach on Team Performance. Avaliação Econométrica da Demissão de um Técnico sobre o Desempenho da Equipe.
Talvez os nossos cartolas lucrassem com a leitura de alguns desses estudos. Pelo título, eles parece pesadamente acadêmicos. Mas, para traduzi-los, bastam poucas e simples palavras. Trocar de técnico não adianta, o que comprova o fato de que times rebaixados em geral mudaram vários treinadores ao longo do ano, tentando achar um que produzisse o milagre da salvação. Se trocar de técnico não adianta, o melhor é escolher bem e ficar com ele pelo menos durante uma temporada. O técnico faz parte do planejamento geral de uma equipe e não o substitui. Uma equipe, para ser vencedora, ou pelo menos para atingir os objetivos a que se propõe (título, Libertadores, Sul-Americana ou simplesmente não cair) deve ser montada de maneira criteriosa. Com jogadores que permitam uma certa harmonia entre os setores do campo, reservas que possam substituir os contundidos e os suspensos, uma estrutura de apoio boa (medicina, fisioterapia, campos de treino e alojamento, etc. ) e um comandante que consiga dar liga a tudo isso. Além disso, a cúpula dirigente deve ser competente, em razão da alta rotatividade dos atletas. Hoje, eles entram e saem o tempo todo. Administrar um time passou a ser como regular um tanque em que existe uma saída constante de água. Para manter o nível do líquido, é preciso que haja uma entrada também constante. É lei da física. Que nada diz sobre a qualidade: porque não adianta compensar a saída de um bom jogador com a entrada de um cabeça-de-bagre.
Tudo isso quer dizer que precisamos planejar com a máxima minúcia, mesmo sabendo que isso não é garantia contra a força do acaso que encontraremos em nosso caminho. Mas, se não planejarmos nada, ou se planejarmos mais ou menos, aí sim estaremos expostos, de maneira indefesa, aos mistérios do aleatório.
Desse modo, pode até ser que o Palmeiras não seja campeão e ocorra uma zebra nesta fase final de campeonato. Agora, que tudo foi feito para vencer e driblar o imponderável, isso não se pode negar. Inclusive trocar de técnico não numa hora de crise quando tudo poderia ter desandado, mas em relativa estabilidade. Substituí-lo por alguém tão competente quanto e ainda buscar um reforço como Vágner Love para o ataque. Quando a instabilidade causada pela polêmica saída de Keirrison parecia abalar o projeto, a diretoria soube drenar a crise e depois transformá-la em instabilidade criativa para alcançar um novo e melhor patamar. Luiz Gonzaga Belluzzo, que é economista, sabe que com o acaso não se brinca. E talvez seja esse conhecimento que lhe perturbe o sono à noite. Por bem feitas que estejam as coisas, nada serve de garantia absoluta.

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