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O aprendizado da modéstia

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h41

31/7/2007

Semana passada escrevi que o fato de Corinthians e Flamengo ocuparem a parte
de baixo da tabela era sintoma de que as coisas não andavam bem no futebol
brasileiro. Logo recebi algumas mensagens me acusando de pessimista, ou de
corintiano ou rubro-negro enrustido. Essas mensagens diziam que, para a
parte da torcida que representavam, o campeonato ia muito bem, obrigado.
E, de fato, encontro aqui mesmo ao meu lado são-paulinos vestindo
orgulhosamente a camisa do time. Imagino que botafoguenses, mesmo que
ressabiados com a derrota diante do Cruzeiro, ainda mantenham o otimismo e
moral elevado. Isso para não falar dos gremistas, que perderam a
Libertadores mas não o rebolado (com todo o respeito, tchê!) e ocupam a
terceira posição na tabela.
E da mesma forma devem estar pensando vascaínos e cruzeirenses. Mesmo os
palestrinos vêem um time esforçado em campo, com jogadores chegando junto,
acreditando em todas , colhendo os frutos da dedicação pessoal dos atletas e
da aplicação tática do conjunto. Raça não é tudo, mas é alguma coisa. Em
parte graças a ela, o Palmeiras pôde arrancar dois empates em jogos
considerados perdidos, contra o Santos e contra o Juventude.
Quer dizer que vai tudo bem no ex-país do futebol? Nada disso, e nem vale a
pena pensar nos sentimentos da gente que freqüenta a parte de baixo da
tabela. Menos ainda lembrar que o clássico das duas maiores torcidas do País
levou pouco mais de 5 mil espectadores ao Morumbi. Culpa do frio? Nada, já
vi aquele estádio com 20 vezes mais gente mesmo sob chuva torrencial. Por
que as pessoas não foram? Ora, porque as expectativas contam muito nessa
hora. Quando o Corinthians começou embalado, com aquele time de meninos,
tinha o apoio da torcida. Essa impressão inicial foi se desfazendo, veio a
crise política, e tudo desandou. Daí as arquibancadas vazias.
Já escrevi aqui várias vezes que o fundamental é a qualidade do futebol
apresentado, um nível técnico que nos habilitou a cinco títulos mundiais e
nos deixou mal acostumados. Quer dizer, bem acostumados a duelos de grandes
craques, belas jogadas coletivas, dribles, gols fantásticos, etc. A torcida
já relativizou essa exigência. Não temos mais a mesma qualidade em campo,
por motivos que seria ocioso recordar já que todos nós os conhecemos bem.
O que resta, então? O desempenho dos nossos times na tabela e o valor da
aplicação individual e tática em um futebol tecnicamente fraco. Valem a
vontade de vencer, a emoção, o suor e a fibra. Não nos iludimos nem mesmo
com a devoção do jogador pela camisa, porque sabemos que ela é transitória e
só existe até a próxima oportunidade de transferência para a Europa, a
Turquia, os Emirados Árabes, o Japão, onde for que se acene com um punhado
de divisas. Mas podemos exigir que honrem a camisa pelo menos enquanto a
vestirem.
Assim, mesmo aqueles que têm a memória dos grandes times do passado vão
aprendendo a rebaixar expectativas e aproveitar o que sobrou. A boa posição
do time na tabela parece suficiente para se afirmar que tudo vai bem com o
futebol brasileiro. Se vemos dedicação em campo, perdoamos a técnica
deficiente. Se a bola bate na canela e entra, o beque fura, ou é o próprio
adversário quem marca contra…bem sempre são uns pontinhos a mais na
contabilidade, não é? Estamos aprendendo a ser modestos.

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