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O Brasil na defesa

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h44

14/8/2007

O São Paulo segue impávido no caminho do bicampeonato. Já está no papo? Não,
falta metade do percurso. Mas acontece que o tricolor paulista já vai dando
uma cara, uma personalidade a este Brasileirão-2007. O perfil foi esboçado
na vitória do meio da semana sobre o Botafogo, por 2 a 0, em pleno Maracanã.
E confirmado no jogo contra o Atlético-PR, também por 2 a 0, no Morumbi. Há
aí um estilo de jogar que vai se afirmando. E com o mais poderoso argumento
do mundo do futebol – o resultado positivo. O São Paulo tem uma defesa muito
eficiente e um ataque que, se não brilha, com segue fazer um golzinho ou
dois lá na frente para garantir os três pontos. E assim, o líder segue, em
ritmo de cruzeiro, com sete vitórias seguidas e abrindo distância em relação
aos concorrentes.
Em números: o São Paulo tem 24 gols pró, o que não chega a ser brilhante,
com média de 1,26 por partida. Acontece que sofreu apenas sete e aí sim é
notável: 0,37 por jogo. É a defesa, ou melhor, o sistema defensivo que vem
fazendo a diferença.
E é bom que seja assim? Nesse ponto entramos no pantanoso terreno dos juízos
de valor. Pantanoso, porém inevitável, porque cada um tem na cabeça (e isso
depende da sua formação), uma maneira de ver o futebol que lhe parece melhor
do que as outras. Este colunista foi formado na doutrina do futebol
ofensivo, criativo, o chamado futebol-arte, que muita gente acha tão
ultrapassado como as calças boca-de-sino, aquele signo de elegância dos anos
70. Paciência. Uma coisa é o futebol idealizado que tenho na cabeça – aquele
de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, ou Gérson, Tostão, Jairzinho,
Pelé e Rivelino – e este que temos hoje e encontra no São Paulo seu
representante maior.
Avaliando de maneira realista as forças de que dispõe, Muricy monta um time
extremamente eficaz e que, sem encantar ninguém (talvez nem mesmo a sua
torcida), vai despontando como o favorito ao título de 2007.
Gosto de ouvir o Muricy falar. A qualquer pergunta que saia um pouco do
arroz-com-feijão, ele faz sinais de desagrado, como a dizer que frescura não
é com ele. O futebol (destacando bem o “e”, à maneira paulista) é coisa
simples, o time tem de ser equilibrado e o negócio é ganhar. Muricy é um
exemplo acabado de pragmatismo à brasileira. Bem diferente de Telê que, como
todos, também queria vencer, mas tinha um sentido ético-estético do futebol.
Alguma coisa que era do futebol e, ao mesmo tempo, ia além dele. Hoje isso é
frescura, diria o Muricy.
Outro dia entrevistei o historiador Hilário Franco Jr., que escreveu um
livro maravilhoso sobre o futebol chamado A Dança dos Deuses. Nessa obra
bastante completa, o professor Franco Jr. examina de que maneira o futebol
se tornou um esporte privilegiado, capaz de expressar e se tornar metáfora
da sociedade onde é jogado e apreciado pelo grande público. Me pergunto se
esse pragmatismo são-paulino, se essa austera doutrina do possível adotada
por Muricy, não seria a mais representativa deste momento do Brasil. Um país
que vai caminhando, meio aos trancos e barrancos, mas parece ter perdido a
dimensão da utopia, a inspiração. Deixou de sonhar com coisas belas e se
contenta com a burocrática administração das coisas, diante de um mundo
hostil.
É uma maneira de vencer. Mas é triste.

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