As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O brilho nos olhos

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h09

6/11/2007

Aquela entrada de carrinho de Finazzi, o gol feito com o bico da chuteira já
nos descontos, pode ter sido a salvação do Corinthians. Pode, porque o drama
não acabou, o Timão tem ainda três passos difíceis para se livrar do
rebaixamento. Mas não existe nada de mais corintiano do que aquela redenção
na undécima hora, quando tudo fazia crer que a vaca já tinha ido para o
brejo e o descenso era certo. Porque, convenhamos, se tivesse perdido para o
Atlético-PR em casa, a situação seria trágica, inclusive do ponto de vista
psicológico, fator que conta muito na hora do aperto.
Todo mundo sabe em que condições o Corinthians chegou a essa situação,
portanto não vale a pena nos repetirmos. Acontece que o time está
demonstrando uma vontade de sobreviver que é digna de admiração. Outro time
talvez já tivesse entregado os pontos e se conformado com a sorte. Não o
Corinthians. Lutou até o fim. E só quem luta até o fim consegue empatar
quando ninguém mais acredita nisso. Nesse mundo do futebol, mediado pela
mediocridade do lucro imediato, ainda dá gosto ver jogadores brigando em
campo como se suas próprias vidas dependessem disso.
O contraponto ao Corinthians, na rodada, esteve na outra ponta da tabela. O
Santos tinha tudo para decidir em casa sua passagem para a Libertadores, mas
jogou de maneira tão indolente que acabou por ceder empate ao fraco
Atlético-MG. Compreensível a irritação de Vanderlei Luxemburgo depois do
jogo. Faltou amor e comprometimento, acusou o “professor”. Faltou “brilho
nos olhos” dos jogadores. E faltou mesmo. Parecia, a quem assistiu ao jogo,
que os santistas eram completamente indiferentes ao resultado. Se desse para
ganhar, muito bem. Senão, paciência, que ninguém iria perder o sono por
causa disso. Estavam lá para fazer seu trabalho, bater ponto e voltar para
casa. Resultado: com o empate na Vila, o Santos terá de suar sangue para
conseguir a vaga que já estava em suas mãos.
Portanto, dois empates em casa, objetivamente dois maus resultados, mas com
os sinais trocados: o do Corinthians soa como vitória, mesmo em sua situação
in extremis, porque foi um prêmio pela luta. O do Santos parece derrota,
pois foi castigo a um time preguiçoso.
Jogadores com e sem brio provavelmente existiram desde que a primeira bola
foi chutada em alguma pelada ancestral. Tenho para mim que a falta de
comprometimento aumentou na nova ordem futebolística. Como tudo é provisório
e a camisa que se veste hoje com certeza não será a do ano próximo, parece
mais fácil aos jogadores adotar aquela posição do “não estou nem aí”. Vivem
de passagem pelos clubes e podem se lixar para um futuro que não lhes diz
respeito. “O time vai para a Libertadores? Não é comigo, pois não estarei
aqui, mesmo. Não vai? Eles que se virem, eu vou estar em outra parte, na
Europa, se tiver sorte.” Parece ser esse o raciocínio, fruto não apenas de
irresponsabilidade, mas de uma situação instável na qual importa mais
agradar ao empresário que irá negociá-lo para o próximo clube do que fazer
jus à camisa que veste.
Os bons exemplos estão aí e se destacam porque se tornaram raridades no
burocrático mundo dos negócios em que se converteu o futebol. É o caso de
alguns dos jogadores desse Corinthians à beira do abismo, como Finazzi,
Betão e Felipe, entre outros. Foi o caso de Zé Roberto que, mesmo sabendo
que iria logo embora, honrou a cada minuto a camisa de Pelé.
É chato viver num mundo em que a dedicação, que seria obrigatória, se torna
exceção à regra e depende da honradez pessoal de cada jogador.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: