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O clássico, o Rei e a lei

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h20

O resultado daquele gol de Marcinho Guerreiro aos 41’ do segundo tempo contra o Guará foi ter transformado o que seria um Corinthians e Santos em ritmo de amistoso no clássico cheio de paixão que teremos amanhã na Vila Belmiro.
Bom, pensando bem talvez seja exagero dizer que um Santos e Corinthians poderia virar um jogo de compadres, em qualquer circunstância. Com tanta tradição, tabus e goleadas fantásticas de lado a lado, esse jogo tem sempre alguma coisa de especial. Aposto que, mesmo matematicamente desclassificados, os santistas torceriam com todo o fervor, apenas pelo prazer de “tirar o Corinthians”. Mesmo porque a conta das rivalidades nunca fecha de todo e aquela goleada de 7 a 1 de 2005 continua entalada na garganta da galera peixeira. Estará, creio eu, até o final dos tempos, como na goela do lado oposto continua encravada a espinha (de peixe) daquele antigo tabu de 11 anos do Santos de Pelé, Coutinho & Cia. Dói ainda, mesmo em corintianos que, naquela época, não eram sequer um brilho no olhar de suas mães, como dizia um poeta.
Assim são as rivalidades e, quando não descambam para a boçalidade, são elas que mantêm viva a chama do futebol, por mercantilizado e aviltado que esteja. Agora, como convencer a jogadores profissionais que devem se empenhar a fundo num jogo que, a rigor, não valeria nada caso o Santos estivesse fora do páreo? Com o gol de Marcinho, a esperança, ainda que tênue, foi mantida. Já o Corinthians precisa do resultado como de ar para respirar. Tudo faz prever um clássico sensacional com a Vila lotada e vibrante.
Aliás, emoção é o que não tem faltado nesta fase final de classificação em que vários clubes se candidatam a uma das quatro vagas, Lusa e Santos incluídos. Futebol sem emoção não vale muita coisa. Agora, no melhor dos mundos, emoção deve se somar a qualidade técnica. E esta anda em baixa não apenas no futebol paulista, mas no brasileiro de maneira geral.
LEI PELÉ
Uma das razões para a queda de qualidade está completando dez anos de existência. Digo “uma” das razões, porque responsabilizar a Lei Pelé por tudo de mal que acontece seria ignorância. Mas que ela tem uma boa parte da culpa, isso não se pode negar. Fragilizou os clubes, beneficiou uma casta de jogadores e fortaleceu um enxame de intermediários que lucram como nunca na transferência acelerada de atletas. Favoreceu a rotatividade e condenou os times a um infindável processo de desmanche e reconstrução. Precisa ser revista com urgência. Não com olhos no passado, mas no futuro do futebol brasileiro. Que, afinal, como instituição coletiva, deveria estar acima de interesses individuais.
A lei foi promulgada num contexto de globalização do futebol, que transformou os grandes clubes europeus em multinacionais da bola. Esse processo se ampliou e fez do Brasil um país ferozmente exportador de jogadores. O problema da lei é ter colocado o País em posição indefesa diante de um mercado desigual. Faz do atleta brasileiro uma commodity barata para consumo de centros economicamente mais poderosos e não prevê salvaguardas que defendam a qualidade do futebol aqui praticado. Tem sua parcela de responsabilidade na transformação do Brasil em colônia futebolística, que vive da exportação de “produtos primários”. Manda para fora o que tem de melhor, para consumo e usufruto dos países ricos.
Não deixa de ser uma ironia cruel que o maior artista da bola de todos os tempos empreste seu nome à legislação que contribui para tornar o futebol brasileiro mais medíocre a cada ano que passa.

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