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O Corinthians e a ética do resultado

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h41

Muitos coritinianos suspiraram quando Mano Menezes deixou o comando do
Corinthians para dirigir a seleção brasileira. Tinham razão para
lamentar. Ao longo do seu longo período de trabalho, Mano dera
estabilidade ao time, uma confiança que apenas a continuidade pode
garantir. A gente sabe como é. No nosso tempo as relações tendem a
durar pouco – de empregos a casamentos, e ainda mais a união sempre
frágil entre treinadores e clubes de futebol. Mas Mano parecia acima
do bem e do mal. Não conheci corintiano que tivesse uma única má
palavra a dizer sobre quem havia reconduzido o time à Primeira
Divisão e lhe dera padrão de jogo reconhecível e sólido.

Quando ele se foi, ao lado da apreensão, criou-se uma expectativa,
digamos, interessante, em torno do substituto Adilson Batista, que
fizera belo trabalho no Cruzeiro, mas também tinha (e tem) a fama de
Professor Pardal, quer dizer, de alguém chegado a invenções. Em seu
começo de trabalho, Adilson logo mostrou personalidade. Apesar de
substituir uma unanimidade, empenhou-se em colocar sua marca pessoal
num time que vinha sendo considerado favorito ao título. Depois de
algum tempo, o novo Corinthians já parecia a alguns analistas (e,
entre eles, me incluo) até melhor do que o anterior. Mais leve, livre
e ofensivo, mais agradável de se ver jogar.

No entanto, nas últimas duas semanas, Adilson vinha sofrendo no
quesito fundamental do futebol, aqueles que põe em segundo plano todos
os outros, e ofusca qualquer tipo de consideração ética ou estética: o
resultado. O leitor é livre para dizer que, desde que a bola começo a
rolar, lá nos tempos das cavernas (para onde às vezes acho que estamos
voltando), sempre foi assim. O resultado é o que conta, talvez ainda
mais hoje do que sempre. E o Corinthians vinha tropeçando, e pondo em
risco a única conquista disponível para o ano do centenário. Tudo o
que vem sendo falado hoje, das trombadas com atletas ao desgaste
político de Adilson, não surtiria o meno efeito caso o time viesse
atropelando nessa reta final. Não é o caso, por uma série de motivos
e, dessa forma, mais uma vez sobrou para o treinador.

Claro que não sabemos até agora o que aconteceu, e os envolvidos
sempre fazem questão de nos deixar na dúvida. A gota d’água foi a
derrota para o fraco Atlético Goianiense, em pleno Pacaembu. Ela
apenas foi o sinal mais visível de um time que vinha perdendo
consistência nas últimas rodadas – justamente naquelas em que um
candidato ao título de tem de embalar definitivamente. Os problemas
reais são muitos: contusões, o impasse insolúvel de Ronaldo, a
convocação de Elias em hora errada, o desgaste físico pelo excesso de
jogos etc. O Corinthians enfraqueceu por tudo isso e não, acredito,
por Adilson ter inventado demais e tirado coelhos da cartola quando
deveria permanecer no arroz com feijão. Houve uma espécie de cansaço
do material, prematuro, e a diretoria entendeu que tinha de fazer essa
demissão emergencial, sob pena de terminar o ano sem sequer uma
conquista para comemorar. Contam, talvez,com aquilo que de vez em
quando acontece na chegada de um novo técnico. Aquele choque no
elenco, capaz de despertá-lo para estas últimas e decisivas rodadas.

Boleiros, 12/10/2010

Vai dar certo? Como saber? O que se pode dizer é que a atual diretoria
do Corinthians será julgada por seus próprios padrões – a da ética de
resultados. Se o elenco reagir, já agora contra o Vasco, e retomar a
disputa pelo título, tudo bem: a decisão de afastar Adilson terá sido
acerta. Caso contrário, a gestão Sanchez ficará marcada pela atitude
precipitada e talvez imprudente na reta final de um campeonato
difícil.

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