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O craque e a tática

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h19

Amigos, se vocês fossem obrigados a escolher ficariam com o craque ou com a
tática? Penso nisso a partir de dois jogos interessantes deste fim de
semana. O primeiro: Fluminense x Santos. Talvez não exista no Brasil time
mais bem armado, taticamente, do que o Santos. Bem distribuído em campo,
atletas cumprindo suas funções de maneira disciplinada, o Peixe dominou o
jogo contra o Fluminense na maior parte do tempo. Criou chances para marcar
e não marcou. Em lance fortuito, um chutão da defesa para o ataque, entra em
cena um zagueiro desastrado, mete o cocuruto na bola e marca contra. O time
que fez tudo certinho perde a partida.
O outro jogo: Vasco x Corinthians. Talvez não haja time mais bagunçado no
futebol de elite do Brasil do que o Corinthians. O comportamento desordenado
dentro do campo parece refletir, de alguma forma, a guerra política do
clube, que acontece fora do gramado. O Timão conta com grandes jogadores,
mas estes não parecem conversar entre si. Futebolisticamente falando, claro.
Começou perdendo por 2 a 0 em São Januário e já se temia por uma goleada
diante do Vasco. Como todos sabem, com garra e graças aos talentos
individuais de Carlos Alberto e Nilmar, virou para 4 a 2, na partida mais
empolgante do fim de semana.
Conclusão: precisamos de disciplina tática, sim, mas ela é insuficiente. Sem
a dedicação e o talento dos jogadores acima da média, ela não basta. Pode
atenuar as deficiências de um elenco, mas é incapaz de fazer de um conjunto
mediano uma equipe vencedora. Alguém vai dizer: no futebol existe o
imponderável, o acidente, o não previsto, aquele personagem que Nelson
Rodrigues chamava de Sobrenatural de Almeida. E este marcou sua presença
domingo no Maracanã, resolvendo o problema do apático Fluminense. Certo. Mas
depois do acidente, o desastroso gol contra de Luís Alberto, o Santos teve
23 minutos para empatar e virar. Não havia um único jogador lá na frente que
fosse decisivo. E enfiasse a bola na rede, que é o que conta.

Já o badernado Corinthians tinha os craques para resolver o problema e se deu bem. A tática
representa a força da lógica. Trabalha no domínio do previsível, da ordem,
da razão. O craque inventa a sua própria lógica. O craque é o curto-circuito
no sistema. Aquele que obriga o sistema a se reinventar. É o que está em
falta no futebol brasileiro, sendo o Corinthians uma das raras exceções.
Comparando os dois times paulistas, o que temos? Um, o Santos, que com o
atual elenco parece no limite da sua eficiência. Não tem muito mais como
crescer. Está certinho, redondo, mas lhe falta a faísca de talento, aquela
que faz a diferença entre os times competentes e os realmente grandes. Já o
Corinthians dispõe de muito espaço para melhorar. Está longe de mostrar todo
o seu potencial. Aliás, está devendo há muito. Mas, se conseguir administrar
a própria cabeça e ordenar-se, pode ir muito mais longe. A tática não é uma
camisa-de-força para o craque, pois ele sabe como negá-la quando preciso.

NOVOS DESAFIOS

Os clubes brasileiros têm novos desafios a vencer além dos já conhecidos
como a perda de jogadores no meio da temporada, a fragilidade econômica, a
politicagem interna, o descaso da CBF, o anacronismo de gestão de alguns
deles, etc. Com o furor punitivo dos tribunais,agora são obrigados a dedicar
boa parte da sua energia e tempo para resolver o problema de jogadores e
técnicos suspensos, julgamentos refeitos, sentenças draconianas. Vivem agora
sob ameaça constante de procuradores insaciáveis com seus livros da lei sob
o braço. Nada disso acontece por acaso. O futebol faz parte do mundo e
reflete o que acontece nele. Com a crescente americanização da sociedade
brasileira, também o futebol está sendo levado com freqüência maior às
barras dos tribunais, que intervêm cada vez mais no andamento e resultado
dos campeonatos. Hoje, um advogado eficiente é tão importante para um clube
quanto um centroavante matador. Há quem veja nisso um progresso. Não eu.

23/5/2006

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