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O Cruzeiro é a exceção *

Luiz Zanin Oricchio

15 de outubro de 2013 | 08h18

Amigos, um torcedor me perguntou, meio decepcionado: "Onde está a emoção deste campeonato?" Eu respondi a ele, como agora respondo a vocês: perguntem aos cruzeirenses, em particular, se eles têm do que se queixar. Nesse exato momento, mesmo gozando de dez pontos de folga, e já se sentindo com a mão na taça, devem estar atemorizados com as duas derrotas seguidas, para o São Paulo e para o Atlético-MG, seu maior rival. Sim, o temor, junto com a esperança, são duas modalidades formidáveis da emoção. E os torcedores da Raposa podem se queixar de tudo, menos da ausência de fortes emoções neste ano de 2013.

Claro que também existe emoção, em menor grau, entre os que seguem de longe o líder. Mas, convenhamos, por maior que seja a paixão de gremistas ou botafoguenses, todos eles sabem, e nós também, que uma virada nas últimas rodadas parece bem improvável. Não impossível. Raras coisas são impossíveis no mundo maravilhoso da bola. Mas que é difícil alguém tirar o título do Cruzeiro, lá isso é.

Já entre a turma do meio e os últimos, a taxa de adrenalina é grande, e pode aumentar. Alguém já disse, com propriedade, que o Cruzeiro é o grande "problema" do Campeonato Brasileiro de 2013. É uma anomalia de bom futebol perdida num mar de mediocridade. Vamos supor que, por algum motivo, o Cruzeiro não estivesse disputando o campeonato. Teríamos Botafogo e Grêmio brigando cabeça a cabeça pelo título. Logo abaixo Atlético-PR e, um pouco depois, o Atlético-MG. Uma reta final de arrepiar. Mas, não. Temos essa incômoda exceção, jogando em nível tão superior aos outros que abriu dez pontos de frente, mesmo tendo perdido os dois últimos jogos.

Portanto, com o Cruzeiro disparado lá na frente, embora fraquejando nas duas últimas rodadas, restam as outras emoções. As vagas pela Libertadores e a turma do meio, que tanto pode aspirar ao mais importante torneio da América Latina quanto temer pelo rebaixamento. Os mesmos que podem chegar à disputa das Libertadores da América podem, também, amargar a Segunda Divisão no ano que vem. É ou não é uma situação inusitada? E que deveria ser analisada mais a fundo. Aparentemente, chegamos a um futebol tão mediano no Brasil que tudo parece nivelado. Um time jogando um pouco acima desse patamar médio já faz o suficiente para se distanciar. Tenho este nivelamento como mais um sinal de alerta sobre o estado geral do futebol brasileiro. A ser levado em consideração por nossos amigos boleiros do Bom Senso F.C.

De fato, o excesso de jogos, por causa do calendário destrambelhado, é um dos fatores responsáveis pela queda de nível do nosso futebol. Será o único? Claro que não. Depois de anos de descaso da CBF e das federações estaduais, o futebol aqui jogado encolheu-se. Não conseguiu fazer frente à globalização do esporte e tornou-se provinciano. Com a nossa capacidade de gerar craques, deveríamos ter uma espécie de NBA do futebol por aqui. Mas o que vemos é o contrário – um verdadeiro exército de jogadores exportáveis, que vão fazer a vida nos quatro cantos do mundo. Tudo isso é sabido e talvez essa inadequação à economia futebolística do planeta seja o nosso principal problema. Não vamos esperar que os jogadores do Bom Senso toquem nisso, mas os responsáveis pelo futebol, os dirigentes, deveriam fazê-lo. A própria TV, se não fosse menos voraz e imediatista, teria interesse em restabelecer a qualidade do espetáculo que vende. Mas o hábito, por aqui, é chupar a laranja até o fim e depois jogar o bagaço no lixo.

De modo que, se olharmos bem, não falta emoção ao Campeonato Brasileiro. O Cruzeiro espera o tempo passar para ser campeão. Os que o seguem estão de olho numa improvável queda livre do líder. A turma do pelotão intermediário espera escapar da degola e, com sorte, beliscar uma (imerecida) vaga na Libertadores. Virtualmente rebaixado, só o Náutico. Os outros ainda lutam pela salvação.

Há vida no campeonato. Só o que não tem é jogo bom. Estes, quando acontecem, são exceções à regra, como o Cruzeiro.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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