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O desejo de reconhecimento

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h44

Futebol meio fraco neste fim de semana, mas com alguns aspectos interessantes nos jogos. O Corinthians foi medíocre diante do Santo André e já existe quem diga que o problema foi a falta de Ronaldo. Como se o Corinthians tivesse Ronaldo há tanto tempo e pudesse contar com o Fenômeno para todos os jogos. Nesse jogo chinfrim, de certa forma, a atração estava do outro lado. Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, hoje envergando a camisa azul do Santo André. Nesse jogo chato, os único momentos de interesse surgiam quando Marcelinho botava o pé na bola e ela então tomava trajetorias inesperadas. Um escanteio, uma falta cobrada – era o que havia para ver.
No outro jogo, Santos e Mogi Mirim, duas atrações – pelo Santos, a estreia de Neymar como profissional; pelo Mogi, o reencontro de Giovanni com o time no qual viveu sua melhor fase profissional. Um ídolo em final de carreira; um jovem candidato a ídolo. Com esses ingredientes, o jogo tinha tudo para atrair a atenção. E não decepcionou. Neymar fez seu primeiro gol no time de cima e comemorou à la Pelé, socando o ar. Giovanni recebeu as homenagens da torcida do Santos e teve atuação discreta pelo Mogi. Mas, quando tocava na bola, era como Marcelinho: exibia um trato diferente, amoroso, uma lucidez maior que seus colegas mais jovens. Num certo momento, Giovanni fez um lançamento de uns 50 metros, no pé do companheiro, que desperdiçou. Nessa hora, uma máquina do tempo pode ter passado por ali e levado o torcedor a uma tarde distante, naquele mesmo Pacaembu, quando o então jovem Giovanni comandou o Santos num improvável 5 a 2 contra o Fluminense e levou o time para a final do Campeonato Brasileiro de 1995. Conheço torcedores santistas que fizeram questão de ir a esse jogo contra o Mogi Mirim apenas para prestar homenagem a Giovanni.
O que se passará na cabeça desses velhos craques em fim de carreira, agora jogando por times menos expressivos e recebendo homenagem dos grandes clubes nos quais se consagraram, mesmo atuando como adversários? Não sei, ninguém sabe, mas só pode ser uma coisa boa, junto a uma certa melancolia. À certeza inevitável de que o tempo passou e aquela época de glória não volta mais, a compensação de que não foram esquecidos e continuam amados pelas torcidas, agora adversárias. Marcelinho, hoje no Santo André, é para sempre um jogador corintiano. Giovanni, agora no candidato ao rebaixamento Mogi Mirim será sempre aquele guerreiro de cabeça pintada de vermelho que fez a maior partida de sua vida pelo Santos contra o Fluminense. Ambos conquistaram o reconhecimento da torcida. E isso, para citar aquele comercial de cartão de crédito, não tem preço. O desejo de ser reconhecido é a grande fraqueza humana. Mas nada se pode fazer. Faz parte de sua natureza.
Talvez seja esse fator humano o que ainda pode introduzir alguma dissonância na lógica mercantil do futebol e assim salvá-lo da esterilidade. O que pode querer alguém, como Ronaldo, que já tem tudo, dinheiro, títulos, troféus e fama internacional? Talvez ser reconhecido em seu próprio país, onde pouco jogou. Reparem bem: Ronaldo só se tornou unanimidade no Brasil quando veio jogar pelo Corinthians. Hoje todos fazem questão de esquecer, mas até há pouco ele era jogador idolatrado por uns e contestado por muitos. Cansei de ouvir que suas atuações pela seleção foram oscilantes, para dizer o mínimo: catastrófica em 1998, decisiva em 2002, desleixada em 2006. Agora ele está aqui entre nós. Por que veio, quando poderia ter ido para outra parte. E por que nós abdicamos do espírito crítico para melhor recebê-lo? São questões interessantes, de difícil resposta. Mas suspeito de que tenham a ver com a nossa imensa carência de ídolos e do desejo de Ronaldo de ser reconhecido em seu próprio país.

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