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O dilema do Cruzeiro *

Luiz Zanin Oricchio

28 de outubro de 2014 | 16h50

O ano do futebol brasileiro se aproxima do desfecho, sem sabermos ainda se será sensacional ou meio chocho. No Campeonato Brasileiro, a questão é saber se o Cruzeiro, ainda com gordura acumulada, continuará a ratear ou reencontrará o ritmo alucinante de tempos atrás. Se isso acontecer, não terá para ninguém. Se continuar nos vacilos, tem São Paulo, Internacional e Atlético-MG em seus calcanhares, prontos a encostar na ponta, o que poderá resultar em desfecho emocionante a sete rodadas do fim. Ainda mais se for o Galo a se aproximar, o que poderá trazer uma disputa entre os dois grandes rivais mineiros. Briga entre irmãos. Claro, isso interessa diretamente a eles, mas para os brasileiros que simplesmente gostam do futebol bem jogado, também seria muito legal ver os arquirrivais disputando o título. Mesmo porque são dois raros times brasileiros que tratam bem a bola.

Mas tudo isso, convenhamos, depende mais de o Cruzeiro continuar a sua descendente do que do mérito dos oponentes diretos, que mantiveram-se sonolentos por muito tempo. Ora, ninguém cai de produção porque quer. São circunstâncias, algumas previsíveis, outras misteriosas que determinam a baixa de rendimento de um time reconhecidamente bom. Entre as primeiras, o cansaço inevitável por conta de um calendário congestionado. Como todos, o Cruzeiro tem partidas demais para disputar e parece sofrer um período de instabilidade neste momento. Alguns já falam que “virou o fio”, para usar o jargão futebolístico. Ou seja, teve seu apogeu e já entrou no declínio, sem que se possa prever se continuará em baixa ou se a queda será estancada.

Foi atrapalhado também (como outros clubes) pela convocação de seus jogadores para amistosos da seleção. Menos mal que a CBF teve um ataque de bom senso ao determinar que Dunga convocasse agora apenas os “europeus” para os próximos amistosos de modo a não prejudicar os clubes brasileiros em fases decisivas de competição. Desse modo, o Cruzeiro não será prejudicado. Nem os outros. A questão é que alguns dos seus jogadores-chave parecem estar rendendo menos. Pode ser cansaço físico, simplesmente, ou fastio. Ou desgaste psicológico, que também acontece em competições muito longas. Jogador não é máquina , embora insistam em tratá-lo como tal.

O fato é que o Cruzeiro, apesar de líder, encontra-se na berlinda. Perdeu o encanto e a aura de imbatível que já o credenciara a um bicampeonato inevitável. E tem compromisso fora do Campeonato Brasileiro já neste meio de semana – enfrenta o Santos pela Copa do Brasil. É um desgaste a mais. Como se comportará o técnico Marcelo Oliveira? Vai forçar o time para ganhar as duas competições ou privilegiará o Brasileiro? Acho uma falsa questão, embora haja quem sustente que a Copa do Brasil interessa muito por dar uma vaga na Libertadores. Vaga essa já praticamente garantida pelo Cruzeiro, via Brasileirão. Ora, se já é difícil perder o título, parece impossível ficar fora das primeiras colocações, as que garantem a vaga para a Libertadores da América. A Copa do Brasil vale pelo título em si, e não porque serve de caminho a outra competição. Resta ver se o Cruzeiro tem fôlego para enfrentar os dois desafios.

O Santos tem situação diferente. Já jogou a toalha no Campeonato Brasileiro. Tem seguido sua sina de time instável e que alterna bons resultados com derrotas incompreensíveis. Ultimamente, deu para tomar gols nos últimos lances do jogo, como foi contra o Fluminense e Chapecoense. Quer dizer, não tem equilíbrio para controlar uma partida. Como não lhe resta mais nada para o ano, vai para o tudo ou nada com o Cruzeiro. Nada tem a perder. E nisso talvez resida sua força nessas semifinais da Copa do Brasil. Já o Cruzeiro tem de decidir se quer uma coisa ou outra. Ou as duas. E se tem bala na agulha para tanto.

* Coluna publicada na versão impressa do Caderno de Esportes do Estadão 

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