As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O doce veneno das rivalidades locais

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h06

No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.
Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.
Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.
São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.
O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.
E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: