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O drama de Luciano e a redenção de Love

A fatalidade breca ascensão de Luciano e dá oportunidade à volta por cima de Wagner Love. O sucesso dos jogos das 11h tem incomodado boleiros. E, no São Paulo, a culpa é do técnico?

Luiz Zanin Oricchio

25 de agosto de 2015 | 18h43

 

 

Só o futebol para fornecer enredos desse tipo.

O garoto Luciano era a estrela ascendente do Timão, responsável direto por colocá-lo na ponta do Campeonato Brasileiro.

Num lance infeliz, Luciano machucou-se sozinho no jogo contra o Santos pela Copa do Brasil. Vai passar o resto do ano no estaleiro, cuidando do joelho. Sorte ao garoto, é o que desejamos.

Mas foi muita infelicidade. Nessa profissão tão difícil e tão curta, o rapaz entra naquela subida privilegiada, que lhe garante mídia e futuro (a ponto de os gaiatos já o apelidarem de Luciano Ronaldo) e, pronto, lá vem a infelicidade e toca  começar tudo da estaca zero.

Do outro lado da história, estava Wagner Love, na reserva, desacreditado, infeliz, de olhos baixos, sem marcar gols. Depois de um começo estratosférico no Palmeiras (onde ganhou o apelido por levar uma senhora à concentração), Love foi fazer a vida fora do país. Virou, mexeu, ganhou dinheiro e voltou. Acabou no Corinthians, onde não chegou a convencer.

Quer dizer, isso até domingo, quando marcou dois gols dos três na vitória sobre o Cruzeiro, resolveu o jogo e voltou a brilhar como estrela. No lugar de quem? Ora, de Luciano, justamente.

Sua próxima missão será reverter nesta quarta-feira o placar desfavorável ao seu time, que perdeu do Santos por 2 a 0, naquele jogo em que Luciano se machucou.

Jogos da manhã

A CBF não dá uma dentro. De vez em quando, acerta uma e todos parecem querer botar água no chope. Refiro-me aos jogos das 11h da manhã. Fui ao um deles, Santos x Sport, na Vila Belmiro. Pensei que o estádio ia estar com seus 4 ou 5 mil abnegados de sempre e cheguei em cima da hora. Que nada. Estava lotado. Tive dificuldade para estacionar o carro e entrar. Foi um sucesso. Que tem se repetido em várias partes do Brasil. O público gostou do novo horário.

E é fácil de explicar. O jogo das 11h não “mata” o domingo. As pessoas vão, assistem à partida e estão de volta à casa a tempo do almoço em família. Dá até para comer o macarrão da mamma. E tirar uma boa soneca depois, dormitando durante a TV na partida das 16h. Sim, porque o jogo das 11h não anula o horário tradicional do domingo. Soma-se a ele. Virou o jogo das famílias, como tem sido reivindicado por 10 entre 10 especialistas em futebol. Vão os homens, os meninos, as garotas, mães, avós e avôs. Uma festa bonita.

E não é que o novo horário vem gerando protestos por aí? Dos torcedores? Não senhor. Dos boleiros, que dizem não suportar o calor do fim da manhã, início da tarde. É verdade que vivemos um inverno atípico, com temperaturas de verão. Mas será que são muito diferentes daquelas enfrentadas a partir das 16h?

De todo modo, a choradeira vem sendo geral.

Vi duas opiniões muito boas a respeito. A primeira do eterno capitão Carlos Alberto Torres (o maior lateral-direito que vi jogar). Disse ele, sem medir palavras, que o profissional tem de estar pronto para jogar em qualquer horário, em qualquer circunstância e em qualquer lugar. E que até agora não havia visto nenhum jogador dos times vencedores reclamando do “calor insuportável” dos jogos das 11h. Só os perdedores choravam. O que é a mais pura verdade.

A outra foi do atacante Pikachu, do Payssandu, de Belém do Pará. Ora, o Payssandu venceu o Botafogo por 3 a 2, no Rio. Depois do jogo, os botafoguenses queixaram-se do horário. Choraram lágrimas de esguicho à beira do campo. Perguntaram ao Pikachu o que ele achava: “Ora, se prejudicou, prejudicou os dois times”, disse ele.

No São Paulo

Parece que Osório vai ficar. Mas a chapa já estava ficando quente para ele. O São Paulo de fato não está bem. Mas a culpa é dele? Contratam o profissional, prometem a ele um elenco de primeira e, em seguida, dão início ao desmanche da equipe. Daí a responsabilidade é do técnico? Faz bem a diretoria do São Paulo em mantê-lo. Ele é o menos culpado da campanha irregular do Tricolor.

Seria a mesma coisa que o Cruzeiro botar a culpa no Luxemburgo pela proximidade com a zona do rebaixamento. Quer dizer, o time é bicampeão brasileiro, vende a equipe inteira e quer continuar a brilhar? Era o que queria a diretoria do Cruzeiro. Tanto assim que demitiu o técnico bicampeão, Marcelo Oliveira, que foi parar no Palmeiras. Agora só faltar botar a culpa no Luxa.

Diretor de clube de futebol deveria ter vergonha na cara e admitir, alto e bom som: “Vivemos na tanga e precisamos vender os melhores jogadores para fazer caixa. Nossa missão no mundo do futebol é revelar boleiros de qualidade e repassá-los para quem pode pagar. E ponto final”. A torcida que enfiasse a viola no saco.

Mas não. Fazem cara de paisagem e colocam a culpa no técnico, o que é a coisa mais fácil de fazer do mundo. A crise do futebol brasileiro é técnica, com certeza. Mas a crise de imaginação parece mais profunda ainda.

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