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O escândalo de Zurique e nós, os otários

Luiz Zanin Oricchio

27 de maio de 2015 | 18h56

 

Não conheço uma única criança que ignore o fato de o futebol ter se tornado um, com perdão do clichê, antro de corrupção. Há muito se “sabe” que seu negócios milionários são muito escusos, que transações de atletas escondem a evasão fiscal e clubes centenários funcionam como imensas lavanderias de dinheiro emporcalhado. Donde nunca ter partilhado do entusiasmo de alguns colegas com o milionário futebol europeu da atualidade. Ao se internacionalizar, ele fez o mesmo caminho do capital especulativo (do qual faz parte) e se tornou apátrida, voraz e, se vacilar, criminoso. Só não vê quem não quer, repito.

Mas uma coisa é a gente “saber”, assim, pelos indícios, e outra é assistir a esses dignatários todos, incluindo o Marin, serem detidos na Suíça, alcançados, ao que parece, pelo longo braço do FBI e da Justiça dos Estados Unidos. Por enquanto, estão na condição de acusados. Se a coisa for em frente, responderão a processo. Talvez então se desvende alguma coisa desse mundo soturno do futebol, sujeito a tenebrosas transações, como diria o Chico Buarque.

Há quem diga que nada será como antes, daqui para frente. Zurique seria um divisor de águas. Não sei. A idade me fez cético, mas espero que não me tenha feito cínico. No passado escrevi várias colunas neste jornal estranhando fatos como um bilionário russo comprar um clube tradicional como o Chelsea e otras cositas do gênero. Me lembro do tempo do acordo entre Corinthians e uma empresa, a MSI, do Kia Jorabichian, testa de ferro do Boris Berezowski, investidor que não podia deixar a Inglaterra para não ser extraditado, mas que esteve aqui mesmo, no Brasil, para assistir a um jogo do Corinthians, no qual jogava Tevez, e saiu feliz, livre e lampeiro. Já muito se escreveu sobre a Fifa, sobre Havelange, Blatter e Ricardo Teixeira. Continuam por aí. Ricos e arrogantes.

Enfim, não sei desta vez, com os americanos na cola, se a elite da cartolagem mundial terá de responder por seus atos. Se forem inocentes, bem. Por certo terão a melhor defesa do mundo, pois grana não lhes falta para pagar os mais badalados advogados. Também não atinei com o súbito interesse dos Estados Unidos nas malversações desse jogo do qual eles agora começam a gostar para valer. Mas, enfim, coloco-me na posição de observador, com certo distanciamento.

E, para uma coisa confessar a vocês, tenho saudade do meu tempo de inocência, quando achava que os jogadores vestiam para valer a camisa do meu clube, que seus dirigentes eram abnegados que se sacrificavam pelo manto sagrado do qual eram devotos, que as seleções representavam um ideal de suas nações nas competições de que participavam.

O futebol é lindo. Mas já não é a mesma coisa. Nós, torcedores, não passamos de otários.