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O espetáculo interrompido

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h37

Os 34 minutos de jogo alucinante, os seis gols, o placar elástico de 4 para
o São Paulo e 2 para o São Caetano podem ter posto um ponto final no
trabalho de luto do futebol brasileiro pela morte do zagueiro Serginho. Mas
fica uma cicatriz. Aconteça o que acontecer, seja qual for o campeão de
2004, este campeonato será lembrado como aquele em que um jogador morreu em
campo.
A ferida aberta na quarta-feira da semana anterior já vinha sendo suturada
desde a rodada de sábado. O leitor me desculpe voltar a esses jogos
passados, mas acho que eles têm importância simbólica nesse episódio todo.
Antes de Palmeiras e Grêmio, Magrão, amigo de Serginho e seu colega no tempo
de São Caetano, falou a coisa certa: “Ele morreu em campo, fazendo o que
gostava. Nós somos jogadores de futebol. Quanta gente não gostaria de estar
no nosso lugar? Eu tinha dito que ia jogar hoje por obrigação, mas mudei de
idéia. Quero jogar com alegria e amor à camisa.” Jogou. Conduziu o seu
Palmeiras na virada por 3 x 2 sobre o Grêmio, em jogo de pouca técnica mas
muita raça, de ambos os lados. Raça, é bom lembrar, faz parte do futebol.
Sem ela, nada feito, sobretudo em momentos decisivos.
Em outro jogo, a vitória do Santos por 5 x 0 contra o Fluminense, a técnica
prevaleceu. Belas jogadas, um futebol de sonho de Robinho e placar até certo
ponto enganoso. Verdade, o Santos inteiro estava em tarde inspirada e
ganharia de qualquer jeito, mas não foi um passeio sobre o Fluminense como
dizem os números. O clube carioca atacou, jogou bem, ameaçou, pelo menos no
primeiro tempo. Teve um gol legítimo anulado. Mauro, goleiro do Santos, foi
um dos melhores em campo. Era jogo para 6 x 4, 5 x 3, coisa assim. Jogo de
gala, digno de futebol pentacampeão do mundo.
Assim, seja pela dedicação, como no caso de Palmeiras x Grêmio, seja pelo
virtuosismo, como no de Santos x Fluminense, a “rodada do luto”, como foi
chamada, transformou-se em rodada de celebração do bom futebol. Ontem, na
retomada do espetáculo interrompido pela morte do zagueiro, os jogadores dos
dois times entraram com volúpia de bola, como se precisassem provar para si
mesmos que haviam superado o trauma. Correram e brigaram pela bola como um
preito por aquele que não estava mais lá.
E essa foi, com certeza, a melhor maneira de homenagear Serginho e prestar
tributo à sua memória. Os boleiros em campo, honrando esse grande jogo, ao
qual Serginho serviu e dignificou. Foi bonito. Mas, para que tudo isso tenha
realmente algum sentido, é imperioso que eventuais responsabilidades por sua
morte sejam apuradas até as últimas conseqüências, como se costuma dizer
nesses casos, e tantas vezes em vão. Neste mesmo espaço, Marcos Caetano
disse que foi a ganância que matou Serginho. Assino embaixo, se ele me
permitir. Em poucas atividades humanas se fala tanto em dinheiro como no
futebol. Fala-se, pensa-se e age-se em termos de grana, o que não passa de
reflexo da nossa época mercantilizada ao extremo. Essa cobiça de base,
provavelmente aliada à incúria, à indiferença e talvez à ignorância cobraram
seu preço. No caso, o preço do que não tem preço, uma vida humana.
Certo, segue o jogo e segue a vida. Mas, para que sigam para valer,
precisamos saber, até o último detalhe, o que aconteceu com esse moço e
quais foram as circunstâncias que o conduziram à tragédia.

4/11/2004

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