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O estilo jaboticaba de apitar

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h47

Andrés Sanchez disse que se a falta tivesse sido marcada no meio de campo ninguém diria nada. Claro. Atos se definem pelas suas conseqüências. Se o juiz tivesse dado falta de Gil em Ronaldo no meio de campo, o Corinthians reiniciaria o jogo e ponto final. Como foi dentro da área, pênalti. E pênalti convertido em gol com toda a tranqüilidade pelo mesmo Ronaldo.

Então, tudo é relativo e uma mesma ação é falta fora da área e não dentro da área? Nada disso. Falta é falta. A questão é que um lance destes, que decidiu um jogo equilibrado e pode definir um campeonato também muito igual, põe uma lente de aumento sobre a questão da arbitragem no Brasil.

Nesse momento, abro um parêntese. Há colegas que já não agüentam mais discutir arbitragem. Mas, e daí? O que importam nossas opiniões e preferências se temos de nos curvar diante dos fatos? Discutimos árbitros não porque queremos, ou gostemos, ou achemos o assunto interessante, mas porque o tema se impõe.

Voltemos ao lance. Houve contato entre Gil e Ronaldo? Sim, as imagens são claras e quanto a isso não existe controvérsia. O simples contato significa que houve falta? Não. O futebol é jogo de contato. Não é proibido tocar no adversário. Quando o contato vira falta? Vou ao livrinho da FIFA (regra 12): “Será concedido um tiro direto à equipe adversária se um jogador cometer uma das seguintes faltas de maneira que o árbitro considere imprudente, temerária ou com uso de força excessiva”. E então, segue-se a lista de infrações passíveis de punição, entre as quais aquela que Gil teria cometido em Ronaldo: “saltar sobre um adversário”.

Aconteceu isso? Sim, mas toda a discussão reside naquelas palavras-chaves: ele o fez de maneira “imprudente”, “temerária”, ou “com uso de força excessiva”? Quem mede? Quem decide? O árbitro e apenas ele, não as imagens das “n” câmeras disponíveis hoje em dia. E ponto final.

Ou seja, existe uma situação de tudo ou nada (ou foi falta ou não foi, sem possibilidade de posições intermediárias), e o seu julgamento depende da interpretação do juiz, pois ao contrário do que se diz, a regra é tudo, menos clara. Sua aplicação depende da subjetividade do juiz, da maneira como vê esse ou aquele lance em particular, mas também o jogo como um todo.

E aqui entramos no “x” da questão, que é o jeitinho brasileiro de apitar. Criou-se, no Brasil, um estilo de arbitragem que tende a negar a característica do futebol como jogo de contato. Aqui no Brasil, encostou é falta. Se for no meio de campo, como lembra Andrés, ninguém reclama. Na grande área (e ainda mais na reta final do campeonato), vira polêmica interminável.

A meu ver, deveria gerar discussão também quando é fora da área, porque, ao marcar qualquer contato físico como falta, o que os juízes estão fazendo é prejudicar a dinâmica do jogo. Vão contra uma das determinações da FIFA, a de manter a bola em movimento o maior tempo possível. Isso não significa que os juízes devam tolerar o jogo bruto. Ao contrário, devem proteger, de maneira muito clara, o jogador técnico do brucutu. Daí a achar que qualquer encostadinha significa infração, vai um oceano de distância. Justamente o oceano Atlântico, que separa o Brasil da Europa.

Sobre o lance entre Ronaldo e Gil, as opiniões se dividem. Deixando de lado paixões clubísticas de corintianos de um lado e cruzeirenses de outro, ouvi atentamente as opiniões de colegas e notei que existe empate técnico entre elas. Ou seja, é lance duvidoso, passível de interpretação. Ninguém é dono da verdade e, no futebol, menos ainda.

Quanto a mim, acho o seguinte: só no Brasil um árbitro daria pênalti num lance como esse. Criamos um estilo de arbitragem que, como a jabuticaba, só existe em território nacional. Com a diferença de que a jabuticaba é uma fruta deliciosa.

16/11/2010

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