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O fator humano

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h54

5/8/2008

Não é por nada que os “professores” costumam impingir aos jogadores as
manjadíssimas palestras motivacionais ou de auto-ajuda. Dizem que são aquele
algo a mais, que distingue um mero bom treinador, versado em táticas e
estratégias, daquele alquimista capaz de extrair de cada um o máximo de suas
possibilidades. Pode até ser, o que não aumenta a minha simpatia por esse
tipo de discurso, chegado demais ao fascista para o meu gosto. Agora, a
importância que ganharam tem a ver com algo mais próximo da realidade: o
papel fundamental que os fatores psicológicos têm em todas as atividades
humanas, nas competitivas em especial. Boleiro motivado, com brilho nos
olhos, rende muito mais, diria o Conselheiro Acácio, o prodígio das
obviedades.
Digo isso porque não consigo dissociar a melhora de rendimento de Valdivia e
a bronca pública que levou de Vanderlei Luxemburgo. Há tempos o Mago não
tirava um mísero coelhinho da cartola. Na quarta-feira, saiu bravo ao ser
substituído no jogo contra o Flamengo. Não ficou no banco torcendo pelos
companheiros, como manda a ética. Bateu ponto e foi-se. O professor não
gostou, e gastou o verbo em entrevista. Disse que, se era para ser desse
jeito, o melhor era mesmo ele rescindir contrato, procurar sua turma e ir
logo para a Europa.
Fiquei intrigado com o discurso. Mesmo no ambiente meio rude do futebol, as
palavras costumam ser medidas, cheias de eufemismos e não-me-toques. Nesse
caso, não. Luxa deu um tapa em cima da mesa. Em público, ao vivo, em cores.
Surtiu efeito. No domingo, contra o Ipatinga, Valdivia esteve irreconhecível
em relação às últimas partidas. Parecia reencontrar-se com o jogador
decisivo que foi durante o Campeonato Paulista. Antes mesmo do jogo ele já
havia se desculpado e admitido que andava com a cabeça nas especulações
sobre sua venda. Ao que parece, o tranco de Luxa (uma espécie de terapia no
estilo do Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Verissimo) recolocou
o chileno em seu centro. Que deveria ser o eixo mental de qualquer boleiro,
e tão óbvio que é digno do mesmo Conselheiro Acácio acima citado: se ele
sonha, como todos sonham, com uma transferência em euros, é preciso,
primeiro, mostrar futebol por aqui. Em reais.
Esse é o fator humano de uma atividade tão mercantilizada e especulativa.
Por mais que um atleta esteja cercado de compromissos comerciais,
empresários, lucro e badalações, se ele não tiver aquele “plus”, aquele algo
a mais, que vem de dentro de si, do âmago do seu ser, não conseguirá exibir
suas melhores possibilidades.
Dinheiro é importante, mas não é tudo. Fama pode ser um afrodisíaco, embora
cobre preço exorbitante. Ser tratado como grão-senhor, sobretudo para quem
em geral veio da pobreza, deve ser muito recompensador. Agora, se o sujeito
não consegue se reencontrar com a essência da sua arte, se não se recorda de
quando era um menino anônimo e jogava apenas pelo prazer, se não se mostra
capaz de empenhar o último suspiro na disputa de uma bola, então será
incapaz de reeditar as qualidades que o levaram a ser rico, famoso e
respeitável. Terá se extraviado de si mesmo.
Por isso são valorizados, e cada vez mais, técnicos como Luxemburgo e
Felipão, que conseguem compreender a psicologia dos boleiros e cutucá-los na
hora certa e da maneira correta. Ao contrário do que se pensa, não é o
amadorismo que está matando o futebol mas o excesso de profissionalismo. O
segredo é despertar em cada profissional o amador que existe em seu coração.
E fazê-lo trabalhar em benefício do grupo.

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