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O feitiço da Vila

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h46

Estádios de futebol têm alma. Sempre que vou à Vila Belmiro, como fiz neste
domingo para ver Santos e Corinthians, penso que foi lá que chegou um menino
chamado Pelé, e ali mesmo mostrou seu jogo por 18 anos. Em 1956, já havia um
timaço o esperando, com jogadores como Tite, Jair, Pagão, Pepe, Formiga,
Zito. Depois que o garoto veio, começou a ser cozinhado aquele time que nos
anos 60 seria bicampeão mundial e ganharia oito de dez títulos paulistas
possíveis.
Digo isso porque, ao me acomodar na Vila para ver o jogo de domingo, reparei
num simpático senhor sentado na fileira da frente. Era José Ely de Miranda,
o Zito, patrão do meio-campo naquele time de ouro do Santos. Zito foi duas
vezes campeão mundial pelo Santos e outras duas pela seleção. Era capitão do
time e famoso pelas broncas que dava no moleque Pelé quando este saía da
linha. Vi-o jogar muitas vezes. Era um comandante nato, aliava técnica à
dureza exigida pela posição. Sem ele, o Santos não teria sido o que foi.
Esse Zito que está sentado ao meu lado é um senhor de uns 70 anos,
bem-humorado, disponível. Amigos batem em seu ombro, comentam o jogo que
está para começar. Um sorveteiro mexe com ele, pergunta se não vai sair do
regime e comprar um picolé.
De vez em quando observo o velho líder durante a partida. Ri com a
habilidade de Robinho, aprova a marcação no meio de campo, que asfixia o
ataque corintiano e deixa Tevez isolado na frente. Vibra com os gols. Em que
pensará o grande volante do Santos e da seleção? Talvez num jogo eterno, ao
lado de Lima e Mengálvio, garantindo a retaguarda para que Dorval, Coutinho,
Pelé e Pepe façam o serviço lá na frente. Ex-boleiros, diz Ugo Giorgetti,
que já dirigiu um filme sobre o assunto e tem um segundo em preparação, só
pensam nisso: no tempo em que jogavam bola. Nós, que amamos o futebol, temos
para com eles uma dívida que não podemos pagar. São os nossos heróis.
E que importância tem tudo isso num mundo que só valoriza o presente? Num
mundo em que a Velha Guarda da Portela é barrada no desfile para não atrasar
a escola? Nesse mundo em que qualquer alusão ao passado é logo tachada de
nostalgia? Pois bem: para mim tem toda a importância, pois é de história que
estamos falando. História de um clube, história do futebol brasileiro e da
nossa própria história pessoal. A História, com agá maiúsculo, é tão
necessária como cruel. Quando a ignoramos, perdemos o sentido das coisas e
amesquinhamos a nós mesmos.
As lembranças de jogos do passado e dos jogadores míticos se incorporam
nesse também antigo Estádio Urbano Caldeira que, de outra forma, seria
apenas uma prosaica construção de concreto com um gramado no meio, como
diria algum idiota da objetividade. Era assim que Nelson Rodrigues chamava
esse tipo de indivíduo que só sabe ver o que tem diante dos olhos, como um
asno guiado pela cenoura. Esse cara não vê a aura das coisas e perde o
encanto da vida. No limite, para ele, o futebol é apenas um jogo.
O jogo que “seu” Zito viu com tanta alegria foi um daqueles em que o brilho
individual de um jogador tende a apagar a atuação do conjunto. Talvez seja
inevitável mesmo, pois Robinho deu um passe maravilhoso para o primeiro gol
e marcou os outros dois. Ao longo do jogo driblou, fez jogadas
surpreendentes, deslocou-se de um lado a outro e mostrou que pode ser usado
muito bem nessa função – “flutuando” (como diz o técnico Oswaldo Oliveira)
entre o meio-campo e o ataque. Mas seria injustiça deixar que a estrela de
Robinho empanasse a grande atuação do Santos em seu todo. De Mauro, que
evitou o empate do Corinthians em pelo menos duas ocasiões no final do
primeiro tempo, à marcação eficiente do meio-campo, com Bóvio e Tcheco
surpreendentemente suprindo as ausências de Ricardinho e Fábio Baiano.
Jogasse sempre assim, com essa eficiência e fluência, o Santos seria
praticamente imbatível. Mas, até para o bem do futebol, equipes e jogadores
oscilam mais do que o clima de São Paulo.

15/2/2005

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