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O futebol aparece

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h07

A Copa da África está linda. Pelo menos, fora de campo. Festa da torcida sul-africana, vuvuzelas, o ritmo e o colorido da Mamãe África. Mesmo de longe, venho sentindo a emoção de colegas que têm a sorte de estarem lá. Deve ser uma experiência e tanto, inesquecível mesmo, e esse arrepio tem aparecido nas matérias que nossos amigos têm transmitido. Uma Copa do Mundo é sempre vibrante. Mas uma Copa na terra de Nelson Mandela, no país que venceu o apartheid, é algo único, muito especial, irrepetível.

Tudo isso é ótimo. Mas, dentro de campo, mesmo, o futebol andou meio ralo. Não quero mais voltar a essa história da bola, que já cansou. Mas o fato é que, até agora, a Jabulani, tão criticada pelos jogadores, inclusive brasileiros, é que teria motivos para queixas pelo jeito como andou sendo tratada nas partidas iniciais. Tudo isso até a Alemanha entrar em campo e atropelar a Austrália, no último jogo do final de semana.

Confesso que não esperava grande coisa da Alemanha. É uma seleção que sempre impõe respeito, pelo retrospecto feito de três títulos mundiais, atrás apenas de Brasil e Itália. É seleção para ser temida, não para ser amada. Na Copa anterior, a Alemanha, em casa, não chegou a animar nem mesmo a sua torcida. Foi à África do Sul desfalcada do seu principal jogador, Ballack, contundido, e com um time com vários jovens. Pois bem, um desses jovens, Müller, é uma ótima revelação. Além dele, há Klose, o matador, e Ozil, que tem pinta de maestro do time. Mais do que destaques individuais, parece uma equipe bem afinada. Joga em seu estilo disciplinado, mas sem tanto peso, sem o entrave mecânico que às vezes tira a sua fluência.Parece mais leve e técnica que a de 2006.

Não se trata de criar um bicho-papão de forma prematura, nem compará-la com a mitológica seleção alemã de 1974, aquela de Beckembauer, Overath e outros cobras. Mas que a Alemanha tem pinta de ir longe nessa Copa, lá isso tem. E, por incrível que pareça, é uma equipe que dá gosto ver jogar.

O outro gigante que já estreou, a Argentina, parece que ainda tem de encontrar seu melhor jogo. Ganhou com certo sufoco da Nigéria mas, pelo menos, mostrou um Messi cheio de personalidade e chutando muito a gol. Quem já formou opinião de que ele só joga bem no Barcelona e se apaga na seleção talvez seja obrigado a rever seus conceitos ao longo do torneio. Se brilhar, será bom para a Copa e bom para a Argentina. E ótimo para quem gosta de ver um futebol bem jogado.

Esse ser ludopédico (ops!), que acima de tudo gosta do futebol bonito, até agora não teve muitos motivos para comemorar. Tirando a bela atuação de conjunto da Alemanha, e algumas pontadas de talento de Messi, pouco mais viu nesta Copa que, é bem verdade, está apenas começando. E ainda espera pela estreia de alguns dos seus protagonistas – Holanda, Itália, Brasil e Espanha. No momento em que você estiver lendo essas linhas, a Holanda talvez já tenha feito uma bela partida contra a Dinamarca. A Itália estreia hoje à tarde contra o sempre difícil Paraguai. Amanhã a Espanha mostra se é boa mesmo contra a encruada Suíça e o Brasil entra em campo enfrentando a enigmática Coreia do Norte. Aí sim, depois desses primeiros movimentos de todos os grandes, teremos panorama um pouco mais completo dessa Copa da África do Sul.

Enquanto isso, algumas seleções das quais se poderia esperar alguma coisa, decepcionaram em seus primeiros jogos. O México não conseguiu sair do empate com a África do Sul. Merecia perder, na verdade. França e Uruguai fizeram uma partida medíocre. E Estados Unidos e Inglaterra se mereceram, num jogo tedioso. Dos outros, é melhor nem falar, pelo menos em termos estritamente futebolísticos. O Mundial é muito inflado e, em sua fase de grupos comporta times de qualidade muito desigual, para falar de maneira educada. A pauleira começa, para valer, nos mata-matas. Aí, então, o bicho pega.

(Caderno da Copa 2010, 14/6/10)

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