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O futebol de terno e gravata

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h41

Mais do que as palavras, eram os ternos do Vanderlei Luxemburgo que
manifestavam seu desejo profundo de trabalhar na Europa. Quem o via, nas
tardes escaldantes deste país tropical, gritando suas boas palavras de ordem
na beira do gramado, e vestido com impecável paletó e gravata, deveria saber
disso.
Para nós, parece uma maneira estranha de trajar num campo de futebol. No
“Primeiro Mundo” é corriqueiro. Quem está habituado a assistir às
transmissões do Campeonato Espanhol sabe que de vez em quando as câmeras
saem do campo de jogo e mostram um grupo um tanto soturno de senhores. São
os dirigentes, os donos dos clubes, os investidores, os poderosos chefões do
futebol mundial, em suma. Todos de terno escuro, sérios, e, dependendo da
temperatura, com um sobretudo por cima. Outro dia, vendo a foto de
apresentação de Vanderlei no Real Madri, ao lado de Arrigo Sacchi e do
vice-presidente do clube, Emilio Butragueño, todos engravatados, compreendi
que o treinador brasileiro havia chegado ao seu destino. Ou àquele que ele
acredita ser seu destino.
Não que o modelito paletó e gravata seja novidade total no futebol
brasileiro. Faz parte da história o terno marrom do Dr. Paulo Machado de
Carvalho. Se vestisse outra roupa, ele achava, o Brasil perderia a Copa.
Usou-o na Suécia e também em 1962, no Chile, quando mais uma vez comandou a
delegação. Mas era o terno de um dirigente.
É no corpo dos boleiros que essas fatiotas burguesas nos parecem um tanto
exóticas. Claro, os jogadores assim se vestem quando vão à seleção, por
exemplo, ou quando seus clubes excursionam para o exterior. No passado, era
muito divertido ver aquela molecada brazuca apertada em trajes que eles
decerto sentiam como muito estranhos e desconfortáveis. Fotos da época da
Copa de 1958 mostram o menino Pelé rindo ao ser flagrado no tipo de roupa
que depois se habituaria a vestir. E Mané Garrincha, de terno e gravata, era
a figura macunaímica de um autodeboche tão evidente que nem precisava de
palavras para ser engraçado.
Outro que ficou cômico quando vestiu terno pela primeira vez foi o Robinho,
quando convocado para a seleção. O nó da gravata desajeitado, o paletó meio
fora de tamanho, o sorriso rasgado no rosto diziam tudo – ele mesmo se
achava cômico. Já um potentado como Ronaldo Fenômeno parece tão à vontade
engravatado como se estivesse de bermudas bebendo cerveja em Bento Ribeiro.
E o Ronaldinho Gaúcho, ao receber o prêmio de melhor do mundo da Fifa,
parecia impecável em seu pretinho básico, com a logomarca do patrocinador na
lapela, claro.
Mas, por aqui, abaixo do Equador, sempre vimos a combinação entre o futebol
e a vestimenta cerimoniosa como meio postiça. Talvez porque associemos
futebol a algo informal, alegre, descontraído, de origem popular. O futebol
emana do povo e em seu nome será exercido, pensamos, romanticamente. Por
isso, tudo nele pede o contrário de um comportamento de terno e gravata,
patronal e empresarial. Tanto é assim que achávamos gozado aquele técnico da
seleção argentina de 1978, Cesar Luis Menotti, que, no tempo em que o
Luxemburgo suava na lateral-esquerda, já usava terno completo durante os
jogos. Enfim, os argentinos sempre se consideraram um pouco os europeus da
América do Sul. O grande escritor Jorge Luis Borges chegou a dizer que eles
sequer existiam como latino-americanos – seriam simplesmente europeus na
diáspora.
E, já que quem vive agora na diáspora é o futebol brasileiro, nada mais
adequado que o Vanderlei Luxemburgo e seus ternos escuros terem encontrado
finalmente o habitat para o qual se prepararam toda a vida.
Aliás, temo que o futebol de alto nível, como um todo, esteja agonizando
como arte popular. Apertado num terno Armani e afogado numa gravata Hermès,
pode estar virando entretenimento de elite, coisa de rico. Como se diz por
aí: me incluam fora dessa.

4/1/2005

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